Um Olhar Para O Cinema Estrangeiro: “ALÉM DAS MONTANHAS”





Talvez o nome mais importante do Cinema romeno hoje seja mesmo o de Cristian Mungiu. Em 2007 o diretor foi o grande premiado do festival de Cannes com o avassalador “4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS”. O filme integra hoje praticamente todas as listas dos melhores filmes europeus da década, além de ser considerado o mais importante da retomada do novo Cinema romeno; dessa forma, fica claro o tamanho de sua importância. Como fazem a maioria dos diretores que compõem essa retomada, Cristian elabora através de seus filmes discussões intrínsecas, onde os personagens e suas situações, contextualizam o que é viver, nos dias de hoje, num país como a Romênia; um dos países componentes da “Cortina De Ferro” e praticamente o último a sair de uma ditadura, fatos que atrasaram a nação.


Pois bem, em “ALÉM DAS MONTANHAS” não foi diferente. Em 2012 o filme saiu de Cannes com dois prêmios importantes, o de melhor roteiro e o de melhor atriz, dividido entre as duas atrizes principais e completamente merecidos. E Cristian escolheu uma história capaz de intrigar até os menos favorecidos dos detalhes. Um tanto baseado nos livros de Tatina Nicolescu Bran, estudos sobre os rumos do país, também nos lembra “A Religiosa”, do iluminista Denis Diderot, filmada por Jacques Rivette no Cinema. E deve-se lembrar de que Cristian inspirou-se no polêmico caso da freira morta, durante um ritual de exorcismo, na própria Romênia em 2005. No longa uma jovem religiosa chamada Voichita, que vive enclausurada num convento entre as montanhas, recebe a visita de sua amiga chamada Alina, com quem morava antes de decidir-se pela consagração religiosa e que quer voltar para a Alemanha, onde morou por um tempo. E a visita da amiga trás uma série de obsessões que, além de irem se transformando num verdadeiro inferno, irão causar o clímax derradeiro surpreendente, próprio dos filmes de Mungiu. Alias, os estilos característicos do diretor estão presentes, ele trabalha com um texto onde os diálogos deixam detalhes não ditos, que nos questionam e deixam a nossa interpretação mais desconcertante. O filme é claustrofóbico, se passa em sua maioria dentro das paredes do convento, onde não há energia elétrica e nem água, os ambientes sempre estão escuros, iluminados ou pela luz do dia ou por velas. A câmera, talvez o estilo mais presente do diretor, inquieta; ela está sempre no semidocumental, acompanhando os personagens como se andasse ou corresse atrás deles. E existe uma evolução cheia de inteligência, onde as coisas vão acontecendo no tempo certo, onde o expectador será alvo de surpresas.

Voichita é quem pede a permissão ao Sacerdote do monastério para que Alina permaneça ali por algum tempo, algo fora dos padrões, mas concedido pelo Padre que cede uma exceção. Mesmo assim ele deixa claro que o andamento das rotinas não pode parar. Do outro lado Alina pressiona Voichita para que vá embora com ela, é quando também sempre cita a relação anterior das duas que nos causa estranheza, mas a amiga mantém-se decidida e esquiva-se desse tipo de conversa o tempo todo. Mas como pra bom entendedor meia palavra basta, fica claro que junto ao difícil ambiente da vida monástica, cheia de dogmas e carestias, forma-se ali um ambiente de repressão dos desejos, sejam eles tão somente humanos ou sexuais. Até que Alina começa a passar mal ali dentro, por vezes fica agitada ou psicologicamente irritada, as desconfianças partem então para a possessão demoníaca. Numa das cenas mais estarrecedoras o Padre acompanha Voichita e Alina ao hospital, durante uma forte crise, e ele é indagado pelo médico a respeito de como deixa a jovem dentro do monastério, pois se algo acontecer ele será o responsável.  E o caso só piora. Como se não bastasse, o único contato com a família de Alina é um irmão, que trabalha num lava-rápido, alguém que não pode significar apoio em muita coisa.

Assim as discussões de Mungiu estão armadas. A jovem quer voltar para à Alemanha, pensa que lá terá mais horizonte que na Romênia, um país sem perspectivas para os jovens, onde o próprio irmão só conseguiu emprego num lava-rápido. Sua insistência para que a amiga se junte na viajem também diz muito, pois será que na Alemanha conseguiria assumir um caso lésbico e ficar mais a vontade, uma vez que a Romênia também não é desenvolta em questões desse calibre? A figura do Padre, a figura masculina opressora sempre presente no Cinema de Mungiu, cede numa questão inviável aos padrões, acolhe alguém de fora e tem de arcar com todas as consequências, que de tão imprevisíveis tornam-se drásticas. Estaria mesmo Alina possuída pelo diabo? Ou estaria encontrando uma forma de pôr pra fora toda a repressão do ambiente e de sua sexualidade? E Voichita, que se mantém tão certa de suas decisões, como pode ser tão passiva frente a importantes questionamentos? “ALÉM DAS MONTANHAS” não faz uso de cenas tão explícitas e chocantes como “4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS”, ainda assim, em suas cenas secas, cruas, bruscas, consegue um feito inquestionável. É brilhante, audacioso, corajoso, inquieta o espectador e torna-se um dos filmes mais importantes do ano e, por que não, mais um dos importantes filmes do novo Cinema romeno.


NOTA    9

Daniel Serafim Mais Cinema

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