A HORA MAIS ESCURA (ZERO DARK THIRTY, EUA, 2012)

(Crítica publicada por "Anjo Da Guarda", com seu nome original, no caderno de Cinema da Rede Bom Dia de jornalismo, edição de Itatiba, São Paulo)


“Dos 10 melhores filmes tem de estar, no mínimo, entre os 3 primeiros. Um registro, um verdadeiro documento, polêmico, real e impressionante sobre a caçada de 10 anos ao homem que dividiu toda uma era em antes e depois de 11 de setembro de 2001.”

Sem sombra de dúvidas, o filme que mais gerou polêmica na temporada de premiações do cinema em 2013. Este é o 1º trabalho da diretora Kathryn Bigelow, após ter vencido 6 Oscars em 2012 por seu filme “GUERRA AO TERROR”, quando desbancou o grande favorito “AVATAR”, de seu ex-marido James Cameron. Por conta desse feito, certamente as atenções se voltariam para seu próximo filme, independente de qual fosse, afinal ela provou que num ambiente onde não existem mulheres (estamos falando de “guerra”) ela se saiu pioneira, competente e fez história. Dessa forma ela escolheu um trabalho ainda mais audacioso, no ano seguinte a “GUERRA AO TERROR”, o homem mais procurado do mundo seria capturado, ainda que morto: Osama Bin Laden. Pronto, o feito histórico inspirou a diretora, que entrou em contato com seu roteirista Mark Boal, jornalista que acompanhou os horrores da guerra e juntos trabalharam no projeto “A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty, EUA, 2012)”. O filme foi recordista de indicações importantes, ao Oscar recebeu 5 e ao Globo de Ouro foram 4, além das premiações dos sindicatos ao que foi indicado.

É importante dizer que estamos diante de um filme emblemático, que significa muito para uma geração, aquela que vem depois do “11 Setembro”. Da mesma forma que temos em “CRASH-NO LIMITE” o panorama dos estilhaços gerados nas pessoas após a data, temos aqui também o fervor da missão cumprida. Lógico, não se discute danos ou benefícios, embora a cena final seja passível desta discussão. Ver o filme como um resumo dos fatos pode ser uma forma de se posicionar, mas do ponto de vista cinematográfico, ainda que exista um outro filme chamado “O HOMEM MAIS PROCURADO DO MUNDO (Seal Team Six: The Raid On Osama Bin Laden, EUA, 2012, dirigido por John Stockwell) e que narra os fatos através de uma visão mais militar, “A HORA MAIS ESCURA” surge de antemão como esta espécie de documento e com o arquétipo do definitivo. Pode ser que ainda venham à tona mais liberdades em torno da fatídica captura ou mesmo outra produção que se intitule a mais fiel. O inegável mesmo é que se desconsidere o filme de Bigelow em todo este contexto e levando-se em conta seu feito, isto sim seria um descaso.

(Kathryn Bigelow na premiere do filme)


Quando foi lançado nos EUA no 2º semestre de 2012, o filme surgiu como uma avalanche de incômodos ao país, afinal retrata os bastidores de 10 anos de caça ao terrorista, até então, mais procurado do mundo. A questão, que foi a fonte de todas as polêmicas, é que Kathryn não foi nem um pouco delicada em registrar o uso da tortura por parte da CIA sobre possíveis pessoas ligadas a Osama e que poderiam dar pistas ou mesmo indicar onde o mesmo estaria escondido. Tudo está muito explícito no filme cujo roteiro é conciso, sem exageros e irrepreensivelmente inteligente. No meio de tantos ataques a diretora, acusada de se aproveitar do filme para compactuar com a tortura, defendeu-se perante a  imprensa dizendo: “não é porque faço as cenas de tortura necessárias ao enredo que concordo com elas, mas não posso me furtar de mostrar algo que realmente aconteceu e da qual o desfecho dependeu em tudo”. A discussão realmente foi muito séria, acredita-se que por toda essa controvérsia, o filme deixou de vencer vários prêmios a que foi indicado. Indicado também pela voracidade, a câmera da diretora é clínica, objetiva e vai crescendo a todo instante, tornando-se elétrica. A sequência da invasão a casa do terrorista é um primor, é a câmera apropriada a noite, vista através das lentes dos soldados e diz muito ao evocar assim o título original. “Zero Dark Thirty” é um termo usado pelas forças armadas dos EUA para se referir a uma hora não especificada da madrugada em que o céu ainda está todo escuro. Aqui no caso a hora em que tudo aconteceu, a hora não só mais escura, mas a princípio uma das “horas” mais importantes da história.


É mesmo um filme soberbo, capaz de funcionar como registro histórico dos caminhos que levaram ao esconderijo do terrorista. Um filme altamente verídico, onde a maioria dos personagens estão vivos. A personagem Maya, tão bem interpretada por Jessica Chastain (vencedora do Globo de Ouro pelo papel e indicada ao Oscar), foi quem acreditou na missão e não desviou do foco em nenhum momento. Dedicou-se e numa das melhores sequências do filme, quando numa reunião da CIA, certos de que tinham descoberto o lugar onde Osama se escondia, ela é questionada pelo diretor a respeito de quem ela seria e então responde: “Eu sou a filha da puta que descobriu o lugar”. A atriz, muito serena, consegue passar a firmeza que a mulher teve e ao mesmo tempo a forma de existencialismo presente na missão, afinal, quem é que ganha ou o que se tem a ganhar sendo responsável por encontrar o lugar em que ele se esconde? Que tipo de reconhecimento se poderia esperar? Seria o presidente o grande satisfeito, seria o povo, seria a bandeira ou seriam as milhares de vidas que foram sacrificadas durante a guerra ao Iraque? Enfim, é Maya a frente de todo este emblema e é ela a personagem mais importante dos fatos. O filme ainda conta com atores coadjuvantes de peso, o francês Reda Kateb abre o filme como Ammar, o primeiro torturado e dá um banho de interpretação. A atriz Jennifer Ehle também surge como coadjuvante perfeita no papel de Jessica, agente da CIA que trabalha no Paquistão e que tornou-se mais uma mártir da missão. A diretora realmente acertou no filme, que supera “Guerra ao Terror”, fez um projeto ambicioso tornar-se um registro quase que definitivo do desfecho de um capítulo histórico da humanidade. Se exagerada ou não, em mostrar uma pátria que tortura, ao passo que a mesma pátria entregou tantas vidas ao “abate”, tentou não fugir da realidade. Afinal, a realidade que define a nossa identidade pode mesmo ser cruel demais, mas nem sempre se impõe e sim se opta.

NOTA: 10



Daniel Serafim Mais Cinema

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