Crítica: Vestígios do Dia (1993, de James Ivory; Indicado a 8 Oscars)



Nesta semana, durante meu horário de almoço do serviço, rapidamente observei que em determinado canal de TV paga estava passando este filme. O elenco e a sinopse me interessaram tanto que logo fiz questão de conferir o filme neste fim de semana, com calma e em casa. Surpreendentemente, 'Vestígios do Dia' é um dos mais interessantes e delicados dramas britânicos que já presenciei. Todo aquele ar sério, sisudo e "chato" dos ingleses nos leva a uma estória de amor perdida na tempo e na história. A trama dividida em 2 segmentos nos remete à um amor perdido, lembranças de uma grande casa e todo o compromisso dos serviçais a seus amos; amos estes poderosos e de forte influência política. Relatamos assim o ponta pé inicial para a Segunda Guerra Mundial, através de um mordomo que não soube amar.


O diretor James Ivory, que tem no currículo um extenso trabalho com dramas e romances épicos; traz até nós um conto amargo, mas retratado com sutileza e delicadeza. Vários momentos que deveriam ser rudes acabam sendo tocantes, sem nunca perder aquela frieza britânica. Dirigido com extrema competência por Ivory, o filme traz alguns ângulos de câmera inspirados; como na cena em que vemos o movimento e a conversa das personagens através da janelinha da porta. Filmado com categoria e utilizando câmera estática, este é mais um exemplar de quando um filme simples e sem grandes pretensões acaba sendo muito melhor do que um filme que tenta ser grandioso. De maneira humilde, o diretor adapta o romance para as telas de forma harmônica e delicada. Um filme rico em pequenos detalhes; onde se deve ficar atento aos olhares, às paisagens, ao figurino, à pequenos diálogos que indicam o pré-guerra. Fique atento à direção de arte e seu competente trabalho. Algumas cenas são de encher os olhos, parecendo que realmente estamos na época e no ambiente em que se passa a cena, tudo recriado com maestria. 


Momentos de alívio cômico são ácidos e de importância para dar uma leveza à trama. Outro detalhe interessante é o fato do filme se focar na criadagem: enquanto eles tentam realizar seu trabalho com perfeição, seu patrão é o anfitrião de uma reunião com os mais poderosos da Europa, discutindo questões políticas e sobre a possibilidade de ajudar a Alemanha, que estava enferma economicamente no pós-guerra (a primeira). O que eles não imaginam é que estas reuniões de "paz" acabariam ajudando o partido nazista e dando início à Segunda Grande Guerra. Do ponto de vista histórico, a obra está correta e mostra o lado "brando" de como se fazer política. Mas esta situação que se passa na casa de campo Darlington Hall é apenas um temperinho no real sentido que a trama traz: um homem áspero que cumpre todas suas obrigações com extrema eficácia, mas tal trabalho o leva à perder a sua amada. Enquanto acompanhamos o desenrolar dos fatos na década de 30, também vemos na década de 50 o mordomo tentando reencontrar sua amada (uma governanta), enquanto encontra vários ilustres personagens com diferentes pontos de vista do pós-guerra.

É um filme longo e a maioria o julgaria parado. Mas não o é se você realmente se interessa por estórias simples e bem apresentadas. Na pele do mordomo James temos o excelente Anthony Hopkins, que em um ano antes deste filme havia ganho o Oscar de Melhor Ator pelo seu grandioso trabalho como o serial killer Hannibal em 'O Silêncio do Inocentes'. E aqui mais uma vez ele entrega uma atuação grandiosa e de real poder. Seu trejeito verdadeiramente frio e técnico no fundo esconde uma solidão inconsolável. A talentosa Emma Thompson que também havia recebido a estatueta de Melhor Atriz, aqui mais uma vez dá um show de atuação na pele da governanta Sally . No restante do elenco temos o saudoso Christopher Reeve (o eterno e primeiro Superman), Hugh Grant (queridinho dos anos 90), a jovem Lena Headey (que muito tempo depois ficaria famosa como a esposa de Leônidas em "300'), o veterano Peter Vaughan como o pai de James; e grande elenco, na maioria experientes atores de dramas e romances. 

De alguma forma, o belo 'Vestígios do Dia' é um filme esquecido no tempo. Digo isso porque não é um filme conhecido e lembrado. Ainda mais, a obra concorreu a incríveis 8 Oscars, sem ganhar nenhum. Concorreu nas seguintes categorias, todas merecidas: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Anthony Hopkins), Melhor Atriz (Emma Thompson), Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino, Melhor Trilha Sonora e Melhor Roteiro Adaptado. E afirmo sem medo que em todas categorias ele atinge o objetivo. O seu azar foi pegar concorrência forte com os excelentes 'A Lista de Schindler' e 'Jurassic Park', ambos de Steven Spielberg, além dos fortes 'Filadélfia' e 'O Piano'. Pensei aqui e vi que a edição do Oscar de 1994 foi incrível. Pena que este filme não tenha levado nem um prêmio, mas certamente isso não muda o fato de seu valor. Um filme para ser visto e apreciado sem pressa. 

Emocione-se com a história de amor de uma mordomo e uma governanta, que em meio a rígidos costumes burgueses e um momento crítico da história humana, foi provado pelo tempo e pelas lembranças. Com cenas incríveis, roteiro inteligente, atuações impecáveis e uma fotografia maravilhosa, concretiza-se assim uma obra poderosa. E seria uma das últimas vezes que veríamos nosso querido Christopher Reeve antes de seu trágico destino. Dentre os atores veteranos ainda vivos, Anthony Hopkins é um dos mais poderosos e de importância para a sétima arte. Tenho total respeito por ele, que consegue nos chocar ou nos emocionar; em papéis versáteis e às vezes de difícil compreensão. Como este James, um mordomo focado no seu trabalho, mas que no fundo do seu coração (assim como no livro que ele lê em secreto), alimenta a fome mais voraz de todas: de apenas viver uma simples, uma bonita e única história de amor. E não há amor mais tocante do que aquele relatado através do tempo.

NOTA: 9

Bela fotografia.

Direção: James Ivory

Elenco: Anthony Hopkins, Emma Thompson, Christopher Reeve, James Fox, John Haycraft, Caroline Hunt, Peter Vaughan, Paula Jacobs, Ben Chaplin, Steve Dibben, Patrick Godfrey, Peter Cellier, Peter Halliday, Hugh Grant, Lena Headey.

Sinopse: Em 1958, James Stevens (Anthony Hopkins), um homem de idade, em um grande carro antigo começa uma viagem pela Inglaterra em direção ao mar. Por muitos anos ele foi o mordomo-chefe de Darlington Hall, uma famosa casa de campo. Neste época sacrificou sua vida pessoal por vários anos para ter um alto desempenho profissional, mesmo reprimindo seus sentimentos e passasse uma frieza que na verdade não era parte da sua personalidade. Ele está indo visitar Sally Kenton (Emma Thompson), que ele não vê há muito tempo e tinha sido governanta em Darlington. Ele pensa que talvez ela possa ser persuadida a retomar a sua antiga posição, trabalhando para o novo proprietário de Darlington, um congressista americano aposentado.

Trailer:




Trilha sonora:











O saudoso Christopher Reeve.
Hugh Grant.



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O Vigilante da Noite

4 comentários :

  1. BRAVO!

    ÓTIMA ANÁLISE, DECOMPÔS COM MAESTRIA AS SINUOSIDADES DESSE GRANDE FILME.

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    1. Obrigado amigo, de fato um grande filme pouco conhecido.

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  2. Amei este filme e, mais ainda, depois desta crítica. Obrigada por alimentar uma antiga paixão por filmes belíssimos como este.

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