Crítica: 12 Anos De Escravidão (12 YEARS A SLAVE - 2013) (Post de despedida do membro Mágico De Oz)

 


Há tanto o que eu poderia dizer nessa crítica. Poderia "puxar o saco" do filme como me acusaram de antemão, uma vez que eu amo a produção desde o início do processo de filmagem. Poderia erguer concretas comparações (com ele saindo vitorioso em todos os aspectos, é claro) com o filme X que é o seu concorrente direto nas grandes premiações que estão por vir. Mas não farei nada disso. Serei sóbrio e racional nessa que é minha última crítica, última postagem em geral, no blog. Apenas serei honesto aos pontos primorosos e às falhas, porque ser honesto é o que sempre fui em qualquer uma de minhas críticas... Mesmo que em algumas ocasiões alguns não acreditassem.
Eu nem mesmo desejo falar sobre Oscar, mas é só rapidamente que menciono com achei curioso o que li dizendo que o único motivo para o filme talvez não ganhar como melhor filme na premiação seria por ser um filme... Difícil demais. E, meu Deus, como é difícil de se olhar. Nada do que eu li e me informei antes pôde me preparar para o espetáculo de crueldade de dilacerar peles e a nossa alma que eu presenciei (vale destacar que das 15h até as 23h de hoje eu já assisti o filme três vezes).

 
"Nada pode preparar o espectador para a força de sentimentos humanos devastadores contida aqui."


Contando a saga do homem negro livre que é enganado em uma proposta de emprego (ele acha que sairá em uma espécie de turnê demonstrando sua bela habilidade com o violino) e é forçado a viver como um escravo pelo período de 12 anos que consta no título, o filme me derrubou de início. Digo, já cerca dos primeiros vinte minutos, na primeira cena da primeira (de muitas) surras que Solomon (nosso protagonista) sofre. Aí o filme já ganhou 1) minha adoração incondicional pela sua cortante vivacidade, 2) minha adoração pela atuação - eu engasgo nos elogios. São muitos. Todos - de Chiwetel Ejiofor (seus gemidos, sua expressão). Mentalmente eu gritava "Para! Não dá pra suportar mais isso!" porque essa é a ambição alcançada por 12 years a slave. É cru e poderoso, atirado em nossa cara. Eu não deixei de questionar porque esse mesmo fator, a violência humana baseada em um fato real, foi o que me fez odiar o filme A Hora Mais Escura e aqui foi o que me fez idolatrar esse bravo filme. Talvez tudo se resuma ao propósito. Aqui não é nenhuma campanha que justifica a violência americana, inteiramente pelo contrário. Mostra esse passado obscuro de escravidão horrível na América e quão horríveis, horríveis as pessoas agiram. Esse é o melhor filme que já existiu sobre a escravidão e não se fala mais no assunto.

 
"Olhares e movimentos impecáveis que nos atiram no meio do horror humano tão consistente que vislumbra o limite do que podemos suportar."

E quando achamos que não conseguiremos nos chocar ainda mais, ter nossos corações esmagados ainda mais, isso acontece. Se eu já achava ridículo o filme também lançado esse ano O Mordomo da Casa Branca (The Butler), após presenciar o titã 12 years a slave eu tenho é até vergonha de The Butler existir. 12 years a slave trata todo o sofrimento que os negros passaram com um coração enorme que em segundo algum deixa de pulsar forte em respeito, honra e compromisso com a feia e nua verdade.
Eu dou para ele a minha medalha pessoal de melhor filme de 2013 sem qualquer reserva porque é impossível em todos os sentidos que outra produção que eu vá assistir nos próximos meses (nos próximos anos?) vá me fazer sentir metade do que eu senti. As cenas escurecidas de violência com aquela trilha sonora de batidas e ecos sufocantes... Eu me senti mal. O filme de fato quebrou essa barreira da tela e me segurou pelos ombros me submergindo em todo aquele inferno e me fazendo sentir mal!

 
"Por infinitos minutos, Solomon fica nas pontas dos pés na lama escorregadia tentando resistir ao enforcamento... O espectador para de respirar junto com ele."

Se a atuação do protagonista é de fazer você chorar e ser dominado por essa real necessidade de estender-lhe a mão, dar-lhe um reconfortante abraço, tirá-lo dali, as atuações coadjuvantes também são assombrosas em maravilha. Assim como não há um momento errado de direção de arte, fotografia, figurino, trilha, não há um detalhe de nenhuma das atuações em falso. O que acontece é algumas terem um espaço menor do que o desejado. O que acontece é que a edição peca em um único corte brusco demais e não temos em um todo a sensação dos 12 anos passados.
O filme arrepia a pele e repousa em seu imaginário. É inesquecível. E quanto a esse festival de maravilhas quem é o responsável? Diretor Steve McQueen, é claro! É dele a decisão de fazer a câmera deslizar por entre folhas no canavial. É dele a decisão de fazer a câmera parar no rosto de Chiwetel por quase dois minutos enquanto em silêncio o ator só olha para todas as direções com o olhar mais desolado que (ao menos eu) já vi na vida. É McQueen o homem por trás de cada detalhe desse espetáculo.

 
"Nessa cena, com a câmera em sua face por quase dois minutos, sem cortes, captando apenas seu silêncio, Chiwetel Ejiofor expressa uma dúzia de sentimentos apenas com o olhar."

12 years a slave não tem uma gota de "produto padrão de Hollywood". O final grita essa certeza ao não fazer uso da esperada trilha sonora alta, inspiradora. Não.
O que você encontrará aqui não é uma coletânea de pretensões. O filme nunca força momentos enigmáticos e é exatamente aí quando os tem. Não é um balé de movimentos coreografados, não é extravagância de efeitos especiais. É cinema da alma e necessário.  

NOTA: 9.8

... Como nunca gostei de dizer "Adeus", aqui eu também não digo. Como minhas últimas palavras como membro do espetacular blog Minha Visão Do Cinema, eu deixo apenas "Tenha uma ótima sessão!".


Mágico de Oz

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