GRAVIDADE (GRAVITY, EUA, 2013)

 

 
 

Quando James Cameron lançou “AVATAR” em 2009, apresentou ao mundo aquilo que foi chamado de “a 3ª revolução do Cinema” (a 1ª foi o som e a 2ª foi a cor), ou seja, o 3D. O diretor fundamentava assim novas técnicas para se fazer Cinema, instaurava uma nova era e deixava aberta uma nova fonte da qual, provavelmente, a indústria cinematográfica iria depender no futuro. E em meio a tantas discussões, dúvidas surgiram e muitos questionavam como a técnica do 3D poderia ser bem sucedida em gêneros como o drama, por exemplo, que não dependem “em tese” da técnica, mas da “massa” do conteúdo. O próprio “AVATAR” conciliou de forma sóbria uma linguagem dramática com a performance esplendorosa do 3D, mas para a maioria isso ainda não estava bem esclarecido. Pois bem, ao que tudo indica não há mais dúvidas e talvez o 3D tenha se orientado ao seu caminho de perfeição suprema.
Em “GRAVIDADE” o diretor Alfonso Cuarón consegue, há muito custo e da forma mais maravilhosa, essa proeza da linguagem perfeita aliada com o poder do 3D. Está claro também que ele realiza sua obra-prima máxima, até o presente momento e, diante da magnitude, diante da grande-eloquência cinematográfica, também está claro que Alfonso Cuarón entra, pra quem ainda tinha dúvidas, para a linhagem dos gênios do Cinema . “GRAVIDADE” é um desses filmes que há muito tempo não se via, que há muito tempo se esperava, é desses que grudam e que dificilmente serão esquecidos. O termo francês “tour de force” é empregado para tentar significar justamente essas obras perfeitas, essas que de tão bem imaginadas, são mesmo devastadoras. A verdade é que nunca o espaço foi tão bem traduzido, Alfonso Cuarón, através de um 3D minimamente bem administrado, surge de ângulos impossíveis, cria paisagens sensoriais indescritíveis, uma verdadeira atmosfera e nos confronta com muita ousadia. Pois é esse o clima, durante a projeção, as linguagens se ampliam e o diretor explora a imensidão cinematográfica.
 
 
 

Num plano assistimos uma coisa e em outro plano vivenciamos a consequência do que assistimos, tamanha a capacidade do filme. Num primeiro momento assistimos a missão de dois astronautas, Matt Kowalski (George Clooney) e Ryan Stone (Sandra Bullock), tripulantes da Explorer, que estão em procedimento no Hubble, em órbita ao redor da terra. Para atualizar o espectador do que está acontecendo, (pois é essa a impressão, se existe em nós uma necessidade de nos situarmos na história e no contexto, aqui surpreendentemente, somos atualizados) somos imersos no início do filme num plano sequência de quase 20 minutos, sem cortes, com uma câmera muito sensível girando ao redor do Hubble, ao redor dos astronautas, acompanhando seus delicados movimentos e, por vezes, assinalando um pôr do sol emblemático e belíssimo (pôr do sol, alias, que é a fixação de Kowalski).  Esse plano sequência longo, que se repete durante o filme é um “brinco”, desta forma antes só havia sido visto em “ARCA RUSSA”, obra-prima do diretor russo Alexandr Sokurov. A câmera de Cuarón parece transformar-se num bailarino, parece dançar uma valsa e em meio ao 3D transmite o sentido da profundidade, da distância, de como as coisas vagam ao espaço. É surpreendente.

Existe um segundo momento durante a projeção, que se transforma em meio ao plano sequência. Durante a missão os personagens de George Clooney e Sandra Bulock, são avisados que estilhaços de um satélite russo desativado está vindo na direção deles e assim toda uma ação é desencadeada e nem neste texto, ou numa simples conversa, podemos passar dos detalhes. A câmera assume outro contraponto, ela torna-se subjetiva, assume o ponto de vista ora do personagem, ora da narrativa ou ora simplesmente da ação. Não tem como não dizer, “GRAVIDADE” é uma inovação tecnológica plena, em perfeito exercício de tudo o que se pode usar, mas não pra reafirmar-se e sim pra sustentar o seu propósito. Existe um conceito filosófico “dando liga à massa”, um conflito dentro de Ryan, pois se no dito popular “o céu não é o limite”, aqui nem mesmo o espaço será.  Surge no cabimento certo lirismo, certo poetismo, para fazer vibrar a pulsão de vida, de sobrevivência, que dá sentido ao “todo”. Numa das sequências mais belas a personagem de Sandra Bullock volta à posição do feto, como se estivesse dentro do útero e ao espectador só cabe ficar deslumbrado. E ficará mesmo ao chegar ao final da projeção, um dos finais mais lancinantes de todos os tempos.
 
 

 Assim é inevitável pensar na grandeza de um ator, Sandra Bullok está no melhor papel de sua carreira (aqui sim digna de uma premiação a altura, distanciando-se do Oscar recebido por uma atuação impositiva em “UM SONHO POSSÍVEL”), cria tamanha hipnose com o espectador, ao final do filme é impossível não pensar que sem ela talvez não fosse tão catártico. Também a interpretação de George Clooney é viva, ele como sempre faz com maestria, numa perfeita atuação coadjuvante. Contudo, Alfonso Cuarón cria um novo clássico no Cinema moderno, que se não for assimilado agora em sua plenitude, com certeza será num futuro num muito distante. Seu brilhante trabalho de direção, de roteiro, em companhia do filho Jonas Cuáron; o brilhante trabalho de fotografia de Emmanuel Lubezki, quem criou técnicas que não existiam para um projeto como esse; o brilhante trabalho de trilha sonora, enfim, tudo orquestrado em perfeita sintonia. “GRAVIDADE” tem outro feito brilhante, a ação decorre no tempo real, ou seja, elas duram o que durariam mesmo. Por isso Cuáron é cuidadoso, em seu filme não tem “a mais” e nem “a menos”. É realmente um feito de tamanha grandeza e pensar que, sobretudo, quem se reafirma é James Cameron, proporcionando o efeito “AVATAR”. E, principalmente agora, vai render mais do que nunca. 


NOTA: 10

Daniel Serafim Mais Cinema

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