Crítica: Interestelar (2014, de Christopher Nolan) - Uma obra arrebatadora



O cineasta Christopher Nolan impressiona mais uma vez, levando o público em uma viagem de 3 horas pelo limite do tempo-espaço; no mesmo instante em que contrasta a grandiosidade silenciosa e fria do universo em relação ao tão pequeno mas reconfortante amor de um pai e de uma filha. 


Falar de Interestelar requer falar muito, pois existem diversos fatores envolvidos. A começar pela brilhante filmografia de Christopher Nolan. O inglês, cineasta nerd que estourou nos anos 2000 é um dos 5 mais bem conceituados da atualidade. Com o seu Amnésia ele se colocou em evidência, mesmo que com poucos recursos. Em Insônia ele fez seu filme mais clichê, mesmo assim merecendo atenção pelo estilo noir e de suspense clássico. Em Batman Begins ele reconstrói de maneira sombria e dramática o herói morcego. Mas foi com O Grande Truque em que Nolan fincou de vez seu estilo, em um filme sobre dois mágicos rivais, onde na verdade o próprio filme é um truque com quem está assistindo. Batman - O Cavaleiro das Trevas trouxe um Coringa assustador, críticas pesadas e um filme espetacular. A Origem usa o mundo dos sonhos como base para um filme reflexivo, tenso e surpreendente. Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge encerra de maneira épica e intensa a saga do herói. Agora chega a vez de Interestelar mostrar a quê veio, pegando como base um livro do conceituado físico Kip Thorne. Por diversos motivos, este era um dos mais (ou o mais?) esperados filmes do ano.

Sem dúvidas, a mais ambiciosa ficção científica em anos, muitos irão compará-lo com outros dois filmes. A primeira comparação é com o clássico 2001 - Uma Odisseia no Espaço, de 1968 e do mestre Stanley Kubrick. Porém 2001 é a maior ficção já feita, extremamente complexa, filosofal e alucinógena. Comparado com 2001, Interestelar é mais fácil de acompanhar, sem falar que Nolan não quis lançar um substituto para o clássico, mas sim um filme na mesma linha e que tece uma homenagem. A outra comparação seria com o recente Gravidade, de 2013. Ambos são filmes não tão fictícios assim, parecendo mais dramas espaciais. A diferença é que Gravidade é mais simples, mais visualmente forte e mais direto do que Interestelar. Com todas estas informações, já podemos falar diretamente da produção. Sempre fui fã de Nolan, onde tudo em que o cara toca vira ouro. Ele pega o conceito de blockbuster (superproduções caras, com efeitos especiais e fantasia) e traça um paralelo com a realidade, críticas político-sociais, drama, teorias complexas e reflexões. Seja um filme espacial, de mágicos ou de super herói, Nolan transforma em um suspense psicológico de primeira. Com estas características, ele se destaca por ter um estilo muito próprio. Portanto, o resultado é que o público ou ama ou odeia muito os filmes do cineasta.



Interestelar tem um início calmo, onde desenvolve a apresentação de uma família que tenta sobreviver em um futuro não distante e realista. O mundo está acabando, e está assim por falta de recursos naturais, pragas nas lavouras, difíceis condições de vida. O planeta é um ambiente seco, hostil, onde a qualquer momento ocorre uma tempestade de areia. As pessoas respira pó, desenvolvem doenças. Um pai (Matthew McConaughey) é ex-piloto e graças a uma anomalia magnética que sua filha descobre, ele encontra o que restou da NASA. E então ele lidera a equipe em uma missão em busca de um novo lar, um novo planeta que possa sustentar vida em uma outra galáxia. Devido às complicações temporais (uma viagem espacial destas demoraria décadas ou séculos), eles decidem encurtar caminho entrando no que conhecemos como "buraco negro" ou "buraco de minhoca". A partir daí temos um meio explicativo onde quem não se interessa por física quântica, física gravitacional e outros fatores do tempo-espaço podem ficar perdidos ou até mesmo aborrecidos.






Mas é ao começar a explorar os possíveis planetas de refúgio em que o filme novamente acha um ritmo, com um caminho lotado de surpresas emocionantes. É evidente que o diretor mira alto, de olho não apenas em ganhar o coração do público, como também em ganhar Oscar. Cada vez mais perfeccionista na direção, Nolan faz seu trabalho mais maduro e sério, com alguns momentos muito dramáticos, diferenciando-se um pouco apenas do que já tinha mostrado até aqui. Os ângulos de câmera são magníficos. Temos perspectivas de câmeras acompanhando um personagem ou um objeto de maneira inacreditáveis. O roteiro escrito pelo próprio Christopher Nolan e também por seu irmão e parceiro de longa data Jonathan Nolan é surpreendente. Primeiramente por ser um roteiro que ao menos tenta ser explicativo, mesmo que surreal. Há uma quantidade grande de emoção, usando a fantasia assim apenas como uma maquiagem. Há sequências eletrizantes de reviravoltas surpreendentes lá pela metade final do filme. E se a viagem espacial e a relatividade do tempo fizessem com que um filho ficasse mais velho do que seu pai? Esta é uma intrigante possibilidade que a obra traz. O longo tempo de quase 3 horas (mais especificamente 2 horas e 47 minutos) mantém um ritmo alucinante, passando rápido e sem ser chato. Há ainda diversas referências ao já citado 2001, como os engraçados robôs. O filme apresenta o melhor trabalho de edição do ano, onde nem uma cena sequer é mal cortada, terminada ou apressada.






Muitos podem dizer que o filme poderia tomar outro rumo, ter mais ação, apresentar melhor os planetas e desenvolver outras características que mostrassem mais da galáxia. É verdade! Mas estamos falando de um filme do Nolan, onde a ambição é alta e o alvo é desafiar a mente e a razão. Inúmeras passagens do filme são psicodélicas, alucinantes, poéticas. Como comentado na frase inicial desta crítica, Nolan contrasta belamente o tamanho infindável do universo (e seu solitário silêncio) em relação à um sentimento aparentemente tão simples, puro e vindo de uma criatura tão insignificante, vinda de um planeta tão pequeno. Estamos falando do amor de um pai por uma filha. Cooper deixa sua família para trás em busca de um futuro desconhecido. Sua filha Murph é parte do outro lado da história, a outra peça do quebra-cabeça, que acontece aqui na Terra. Tudo tão grande, e ao mesmo tempo tão pequeno. Tão confuso, mas tão simples. Assim é Interestelar, tornando-se surpreendentemente ambíguo.


O elenco está de parabéns, onde o protagonista Matthew McConaughey mostra o porquê de ser um dos atores mais prestigiados da nossa época. Não é atoa o Oscar de Melhor Ator que ele ganhou neste último Oscar de 2014, pelo seu trabalho em O Clube de Compras Dallas. Aqui ele entrega um papel correto na pele de um homem que ama o espaço, mas ama mais ainda sua filha. A filha adulta é a ruiva Jessica Chastain, uma das grandes atrizes em ascensão. Depois de ganhar um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2012 pelo triste musical Os Miseráveis, Anne Hathaway faz mais um trabalho maduro. Todos os demais grandes atores mandam bem, embora apareçam pouco. Do ponto de vista visual, um dos mais belos trabalhos já realizados. Com efeitos especiais incríveis, porém controlados, temos a noção de um espaço real. A falta de explosões, a falta de sons no espaço, a falta de gravidade, tudo feito de maneira intrigante e crível. A bela e fria fotografia do filme são um show à parte. Todo este apuro visual, combinados com a direção primorosa de Nolan traz-nos um filme visualmente belo e sem exageros. 





A impactante trilha sonora do mestre compositor Hans Zimmer é quase uma personagem. A trilha sonora gritante é envolvente, bela e tem por objetivo emocionar o público. O ritmo sonoro praticamente nos convida a adentrar no espaço, em uma nave, em um buraco negro, numa viagem temporal. Também não posso deixar de comentar da polêmica visão científica do filme. Alguns tem reclamado muito disto. Ora, estamos diante de um filme. E um filme que é um dos menos fantasiosos dos últimos tempos. E de qualquer forma, esta é a mágica do cinema, ser encantado, enganado, sonharmos. Precisamos disso. Isso é pregado no outro filme de Nolan, O Grande Truque. E Interestelar faz isso de maneira ímpar, podendo até mesmo arrancar lágrimas do público feminino e nos mais sensíveis. Não pesquise muito sobre o filme, apenas vá assistir no cinema. Vale o ingresso. Por apenas algum dinheiro você se sentirá entrando na órbita de outro planeta, viajando pelo desconhecido. Interestelar é para ser sentido, presenciado, vivenciado. Uma grande experiência lírica. 


O filme tem reais chances de concorrer em algumas categorias do Oscar, mesmo que não ganhe. Na verdade ele deve concorrer a Melhor edição, talvez a Melhor Diretor. Deve ganhar nas categorias técnicas: trilha sonora, efeitos sonoros, fotografia, efeitos visuais. Resta aguardar o Oscar 2015. Até lá, corra para os cinemas e o assista. Christopher Nolan se supera, fazendo um filme tipicamente e particularmente seu, mas ao mesmo tempo inovando um pouco. Presencie as surpresas da obra, e acima de tudo, encare como poesia. Pois não importa a física quântica, viagem no tempo, planetas inóspitos e futuro apocalíptico. Não há nada maior do que o amor, do que os sentimentos, do que a vida. E as vezes é preciso viajar até o infinito além do tempo-espaço de outra galáxia para se descobrir o quão maravilhoso é ser imperfeitamente humano.





Direção: Christopher Nolan


Elenco: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain, Ellen Burstyn, Casey Affleck, Timothée Chalamet, William Devane, David Gyasi, Wes Bentley, Bill Irwin, Josh Stewart, Michael Caine, John Lithgow, Topher Grace, David Oyelowo, Matt Damon.


Sinopse: Após ver a Terra consumindo boa parte de suas reservas naturais, um grupo de astronautas recebe a missão de verificar possíveis planetas para receberem a população mundial, possibilitando a continuação da espécie. Cooper (Matthew McConaughey) é chamado para liderar o grupo e aceita a missão sabendo que pode nunca mais ver os filhos. Ao lado de Brand (Anne Hathaway), Jenkins (Marlon Sanders) e Doyle (Wes Bentley), ele seguirá em busca de uma nova casa. Com o passar dos anos, sua filha Murph (Mackenzie Foy e Jessica Chastain) investirá numa própria jornada para também tentar salvar a população do planeta.



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