REDUCIONISMO, MANIQUEÍSMO, SIMPLISMO, FABULAÇÃO E DIALÉTICA: A UNE VAI AO CINEMA PASSANDO PELAS FAVELAS

1962: a União Nacional dos Estudantes (UNE) completa 25 anos. Intermediada pelo seu Centro Popular de Cultura (CPC), resolve investir em cinema. Disso resulta o desigual e episódico Cinco vezes favela, a cargo dos iniciantes Miguel Borges, Joaquim Pedro de Andrade, Carlos Diegues, Marcos Farias e Leon Hirszman. É uma realização mítica, mais comentada e citada que propriamente vista. Inserida nas propostas do Cinema Novo e francamente militante, problematiza as possibilidades do povo brasileiro como sujeito revolucionário. Nos marcos dessa proposta é, dentre as realizações do movimento, a que mais direta e visceralmente avançou, apesar das muitas críticas negativas que recebeu.


Título: Cinco vezes favela

Direção: Miguel Borges (Zé da Cachorra), Joaquim Pedro de Andrade (Couro de gato), Carlos Diegues (Escola de samba, alegria de viver), Marcos Farias (Um favelado), Leon Hirszman (Pedreira de São Diogo)

Produção: Marcos Farias, Leon Hirszman, Paulo Cesar Saraceni

Distribuidora: Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC-UNE), Instituto Nacional do Livro, Saga Filmes, Tabajara Filmes

País/Ano: Brasil — 1962

Elenco: Isabella, Flávio Migliaccio, Henrique Montes, Waldir Fiori, Alex Viany, Sérgio Augusto, Carlos Estevão e Waldir Onofre em Um favelado; Labanca, José Saenz, Paulo C. Barroso, Cecil Thiré, Andrey Salvador, Peggy Aubry, Jandira Aguiar, Vera Santana, Cláudio Bueno Rocha, Paulo Henrique e Marina Carvalho em Zé da Cachorra; Cecil Thiré, Andrey Salvador, Glauce Rocha, Francisco de Assis, Sadi Cabral, Joel “Martins” Barcellos, José Zózimo “Bulbul”, Haroldo de Oliveira, Jair Bernardo e Procópio Mariano em Pedreira de São Diogo; Maria da Graça, Abdias do Nascimento, Oduvaldo Vianna Filho, Creston Portilho, Jorge Coutinho e Riva Nimitz em Escola de samba, alegria de viver; Henrique César, Napoleão Muniz Freire, Cosme dos Santos, Cláudio Corrêa e Castro, Paulo Manhães, Milton Gonçalves, Francisco de Assis, Aylton, Damião, Paulinho e Sebastião em Couro de gato.

Em 1962 a União Nacional dos Estudantes completava 25 anos de existência. Apoiada em seu efervescente Centro Popular de Cultura (CPC), resolveu investir em cinema. O resultado foi Cinco vezes favela, único filme que produziu. No período, nascia no Brasil uma maneira mais livre de filmar. Nelson Pereira dos Santos, Roberto Santos, Roberto Pires e Glauber Rocha mostravam a possibilidade de agir à margem dos esquemas comerciais consolidados pelos estúdios da Atlântida e da Herbert Richers, responsáveis, principalmente o primeiro, pelas comédias de inspiração popular e carnavalesca, pejorativamente conhecidas como chanchadas. Também passaram ao largo de propostas como a da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, fracassadas nas tentativas de implantar um regime de produção em escala industrial, capaz de gerar o chamado “cinema de qualidade”, inspirado nas matrizes européias e hollywoodianas.

Nelson Pereira dos Santos aprende a fazer cinema sob influência das limitações técnicas e estéticas do Neorrealismo Italiano. Em Rio 40 graus (1955) e Rio Zona Norte (1957), aponta a câmera para o cotidiano das ruas e morros do Rio de Janeiro. Encena sob luz natural — sempre que possível —dramas centrados nos modos de vida da gente obrigada às agruras do trabalho pouco compensador, às precárias condições de transporte, à falta de esperança e aos expedientes de ocasião dos condenados a sobreviver nos limites da marginalidade. Roberto Santos vai às mesmas fontes neorrealistas e logra O Grande momento (1958), abordagem dos sonhos estreitamente demarcados de um jovem operário que, próximo do casamento, sabe que continuará prisioneiro de uma existência sem brechas às inspirações da ilusão. Pela mesma seara avança Roberto Pires em A grande feira (1961) — exposição dos percalços de feirantes ameaçados de perder, por pressão da especulação imobiliária, o costumeiro ponto à comercialização de seus produtos — e Tocaia no asfalto (1962), denúncia das relações promíscuas entre política e criminalidade. Glauber Rocha, inspirado no cinema revolucionário russo, principalmente na dialética eisensteiniana, descreve e analisa o cotidiano imutável de uma comunidade de pescadores pobres em Barravento (1961).

Leia mais em: http://cineugenio.blogspot.com/2013/06/reducionismo-maniqueismo-simplismo_9.html

J. E. Guimaraes

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