Crítica: Os Oito Odiados (2015, de Quentin Tarantino)


Ah, como é bom ver um filme do mestre! Quentin Tarantino mostra toda sua genialidade, mesmo que brutal, nos seus filmes que a princípio parecem de ação, mas no fundo seu brilhante roteiro guarda uma ácida e amarga sátira, funcionando assim como violentas comédias para maiores de idade. Este novo filme é um faroeste, com estrutura de suspense e final digno de terror, mas que na contagem final funciona como uma comédia de humor negro.
A trama coloca os tais oito personagens odiáveis em um mesmo ambiente, um paradouro no meio da nevasca. Este artifício lembra alguns suspenses, especialmente o livro O Caso dos 10 Negrinhos, de Agatha Christie. Em um tipo de homenagem/sátira aos estereótipos western, cada um dos indivíduos representa um personagem típico do velho oeste e da América pós guerra civil, com todos seus preconceitos contra negros, mulheres, confederados, norte vs sul e etc. Ao avançar de suas quase três horas, os longos e bem escritos diálogos deixam bem claro a intenção do diretor: provocar o lado preconceituoso de uma América (por que não dizer de um mundo?) racista e egoísta.


As atuações do excelente elenco são monstruosas, esmagadoras e ironicamente engraçadas. Jennifer Jason Leigh tem um desempenho que a princípio é simples, chegamos a temer por ela. Mas com o desenrolar, se torna assustadoramente odiável, de tão entregue que a atriz está no difícil papel. É merecida sua indicação no Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Samuel L. Jackson também tem grande destaque, com seu cruel e ardiloso personagem. O veterano Bruce Dern tem momentos de grande atuação, mesmo que silenciosa, tendo um desempenho apenas com o olhar cansado. Todo o restante está muito bem, incluindo o fraco Channing Tatum, que parece estar numa fase madura e de papéis mais alternativos.

A fotografia é linda, os figurinos e maquiagem de época muito bem feitos, a trilha sonora do veterano Ennio Morricone é perfeita, nos lembra os velhos westerns. O longa merece cada uma das suas indicações ao Oscar 2016, que são elas: a já citada Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Trilha Sonora para Ennio Morricone e Melhor Fotografia.



O ritmo lento em um filme de quase três horas é o único ponto negativo, que poderá afastar alguns e impede que o filme ganhe nota máxima. Fora isso, o brilhante roteiro, os personagens terrivelmente cativantes e a grande brincadeira tornam o filme simplesmente fantástico. Na metade da projeção, Quentin Tarantino libera seu sadismo, em um verdadeiro banho de sangue, gore extremo e mortes bizarras, algumas beirando serem engraçadas.

Não é o melhor filme de Tarantino, que já nos trouxe os perfeitos Pulp Fiction, Kill Bill, Bastardos Inglórios e Django Livre. Mas bate na trave, sendo um filme perversamente marcante. No seu jeito tragicômico, Os Oito Odiados choca e faz-nos refletir nos valores que respeitamos, na maneira que encaramos a outros, que às vezes está do lado oposto, mas tem tanto direito de defender seu lado e nos estereotipar quanto nós temos de fazer isso. Não deveríamos fazer isso, todos devíamos estar do mesmo lado, mas isso é irreal. Sem medo de cutucar a ferida, Quentin Tarantino esfrega isso na nossa cara, com muito sangue é claro. Filmaço para quem tem estômago forte, não apenas pela violência, mas para quem não gosta de admitir que vivemos numa sociedade política e socialmente suja, podre e muito hipócrita.




Direção: Quentin Tarantino

Elenco: Samuel L. Jackson, Walton Goggins, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Tim Roth, Zoë Bell, Michael Madsen, Bruce Dern, Demián Bichir, Channing Tatum.

Sinopse: anos após a Guerra Civil, no interior do Wyoming, uma diligência levando o caçador de recompensas John Ruth, também chamado o Homem da Forca, e a fugitiva Daisy Domergue, sofre um acidente e os dois seguem para a cidade de Red Rock, onde Daisy será entregue à justiça. No caminho, eles encontram o Major Marquis Warren, ex-soldado da União que se tornou mercenário, e Chris Mannix, sulista que acredita ser o novo xerife da cidade por direito. Os quatro se perdem numa forte nevasca, e buscam refúgio na parada de Minnie, nas montanhas. Lá, encontram Bob, o mexicano encarregado do local enquanto a dona visita a mãe; o carrasco de Red Rock, Oswald Mobray, o Pequeno Homem; o caubói Joe Gage e o General Sandy Smithers, um confederado. Enquanto a nevada não lhes dá trégua, os oito viajantes vão descobrir que Red Rock pode estar muito mais longe do que eles imaginam.



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O Vigilante da Noite

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