Crítica: Alien - O 8º Passageiro (1979, de Ridley Scott). E a perfeita junção de Ficção Científica com Terror.





Alien - O 8º Passageiro foi lançado nos cinemas em 1979, época em que o gênero da ficção científica vinha sofrendo crescente influência de 2001 – Uma Odisseia No Espaço. Isso significa que as abordagens clássicas estavam ficando para trás enquanto davam lugar às narrativas que se preocupavam em discutir grandes ideias, em vez de somente prezar por aventuras situadas no espaço. Os “filmes de monstro” também estavam presos a uma fórmula muito restrita na área do filme B, dentro do gênero de terror. Era usual que esses dois gêneros, quando eram trabalhados juntos, geralmente resultavam em obras que usavam um deles para ser o principal, enquanto o outro servia apenas para pincelar a narrativa pontualmente. O filme de Ridley Scott realiza uma junção, tanto em atmosfera quanto em narrativa, desses dois gêneros, criando uma experiência angustiante e tensa que influenciou o cinema até nos dias de hoje.


A história começa com a nave mineradora Nostromo em seu caminho de volta para Terra, quando recebe um sinal desconhecido de um asteroide. Em consequência, seu sistema acaba por acordar a tripulação em hibernação. Eles decidem investigar o local quando são atacados por uma forma alienígena, que se instala em um dos tripulantes e acaba indo parar dentro da nave.


Se jamais tivéssemos conhecido esse filme, poderíamos facilmente encaixar essa premissa numa produção barata da década de 50, ou talvez num episódio de Além da Imaginação, mas o que Ridley Scott faz é levar a sério a proposta de construir uma experiência memorável. Ao invés de nos sentarmos na cadeira para ver uma aventura genérica, nos deparamos com uma história pausada, crescente e tensa.

Logo nos instantes iniciais, a câmera de Scott espreita os corredores e compartimentos da nave lentamente, indicando que o ambiente onde ocorrerá a ação é claustrofóbico por natureza. Ao longo do filme, nota-se que a concepção visual da Nostromo remete a um ambiente opressor, com locais sujos e desorganizados, que em alguns momentos, lembra uma grande fábrica abandonada. Há uma contraposição clara com o compartimento onde os tripulantes aparecem juntos em hibernação ou fazendo uma refeição. Ali eles são limpos e aconchegantes, e esse fator desempenha grande impacto narrativo quando servirá para evidenciar o choque da invasão do alien na vida dos sete passageiros (e do gato).


Trata-se de um filme que aproveita o seu tempo para construir suas expectativas para depois transformá-las em clímax. É interessante observar que a mudança nos rumos da história, quando ela passa a ser uma corrida dos personagens pela vida, é tratada pelo roteiro de Dan O'Bannon e Ronald Shusett com inteligência. A primeira metade do filme se empenha em estabelecer a relação entre os personagens e o caráter exploratório da expedição ao local de origem do sinal. Quando Kane (John Hurt) é atacado por uma espécie estranha de vida, o espectador julga que aquela é a ameaça do filme, mesmo que ela aja de maneira misteriosa. Assim, quando o verdadeiro vilão do filme é revelado, o impacto causado é muito mais eficiente e inesperado.


O visual e a aparição do antagonista são um capítulo à parte. A criatura foi idealizada pelo artista plástico suíço H. R. Giger, que imprimiu suas conhecidas características calcadas no surrealismo e no horror, no visual bizarro do alienígena. Seu corpo errático, sua baba contínua, aliados à decisão de quase nunca mostrá-lo por inteiro, levando o poder da sugestão e a ameaça a níveis maiores, são fatores que o tornaram um dos grandes monstros da ficção científica e do terror. A sequência de seu “nascimento” é sublime e se tornou uma das mais icônicas do gênero, servindo de referência a várias outras obras futuras. É preciso ressaltar que a cena funciona tão bem devido ao magnífico trabalho de efeitos práticos do Departamento de Arte e de Maquiagem do filme, e da maneira como ela é conduzida por Ridley Scott.


Essa sequência, aliás, ocorre num momento de descontração dos personagens, que forma uma bela rima temática e visual com outra sequência semelhante no início do filme. A diferença é que na segunda, o comportamento dos personagens desenha com sutileza o caminho que história seguirá dali para frente. Até certo momento, o espectador é levado a crer que o protagonista da história será Dallas (Tom Skerritt), o superior hierárquico da nave. Ripley (Sigourney Weaver) é retratada como uma personagem neutra, mas que é trabalhada de maneira crescente pelo roteiro para se tornar gradativamente a origem das ações e do comando da nave. Sua coragem e seu instinto sobrevivente vão surgindo aos poucos, até que ela se torne a heroína do filme, e posteriormente, uma das mais icônicas do cinema.

Também é interessante notar as táticas que o filme usa para aumentar a sensação de vulnerabilidade das vítimas. Em certo momento, descobre-se que um dos tripulantes é um androide, Ash (Ian Holm, ótimo), que foi mandado para a nave com o propósito de proteger o espécime alienígena sob prioridade máxima. É mencionado que ele está sob as ordens da “companhia”, que é citada vagamente, mas que consegue convencer o espectador de que deve se tratar de um grupo poderoso, que não se importou em descartar uma tripulação inteira para resguardar uma criatura desconhecida. O próprio androide refere-se a ela com admiração, que acaba invariavelmente se transformando em fascínio por parte do espectador.



O primeiro filme da futura e famosa franquia Alien consegue um misto perfeitamente eficiente do visual e da atmosfera de ficção científica com a urgência e tensão de um filme de terror, principalmente em seu terceiro ato. É um filme memorável que ainda sobrevive nos dias de hoje, gerando frutos (uma ótima continuação de 1986, de James Cameron) e influenciando cineastas que se preocupam em criar uma experiência legítima na tela.





Título Original: Alien

Direção: Ridley Scott

Elenco: Sigourney Weaver, Tom Skerritt, John Hurt, Veronica Cartwright, Harry Dean Stanton, Ian Holm, Yaphet Kotto

Sinopse: Nave espacial, ao retornar para a Terra, recebe estranhos sinais vindos de um asteroide. Ao investigarem o local, um dos tripulantes é atacado por um estranho ser. O que parecia ser um ataque isolado se transforma em um terror constante, pois o tripulante atacado levou para dentro da nave o embrião de um alienígena, que não para de crescer e tem como meta matar toda a tripulação.

Trailer


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João Rafael

Estudante de Engenharia Civil no UniCeub e de cursos de Cinema avulsos que forem aparecendo pela frente. Sempre interessado em discutir os as causas e consequências da Sétima Arte.

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