Crítica: O Rei Leão (1994, de Roger Allers e Rob Minkoff) Um marco da infância de toda uma geração!




22 anos se passaram, as crianças da época cresceram, o mundo é outro com a internet, o celular e todas crises atuais. Mas O Rei Leão continua imbatível como um dos maiores marcos da história cinematográfica e das animações infantis. Toda uma geração de crianças (onde me incluo) foram marcadas pela bela e trágica jornada de Simba. Assim como todos adultos puderam vivenciar e se encantar com uma das mais maduras produções do gênero, que talvez dialogasse mais com os mais velhos do que as próprias crianças. Vamos voltar no tempo e recordar este clássico atemporal.


Primeiro alguns fatos: o ano era 1994 e O Rei Leão chegava aos cinemas arrastando multidões para a entrada da sala de exibição, todas elas saindo em lágrimas do que acabaram de ver. Naquela época, o filme se tornou a segunda maior bilheteria de todos os tempos, perdendo apenas para Jurassic Park. E até 2003 foi a maior bilheteria da história das animações. De lá pra cá vários sucessos surgiram com estas animações de última geração em 3D, como Frozen, mas O Rei Leão continua em ótima colocação, no quarto lugar das mais vistas. Levando-se em conta que é uma animação no velho estilo em 2D e desenhada à mão, é muita coisa. O que ajudou a se manter no topo foi seu relançamento em 3D em 2011. Outro fator interessante é que ele é o número 30 das maiores bilheterias de todos os filmes de todos os tempos. Pense em todos filmes de sucesso que existem. Notou como isso não é pouca coisa? Também é o filme que mais vendeu VHS (a velha fita cassete) e DVD's. É a trilha sonora mais vendida dentre as animações. Segue como um dos filmes mais elogiados, aplaudidos e amados pela crítica, assim como pelo público unânime. Em 1995, ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme Comédia ou Musical e na suas indicações ao Oscar ganhou de Melhor Trilha Sonora de Hans Zimmer e Melhor Canção Original para Can You Feel the Love Tonight de Elton John e Tim Rice, além de outras canções também terem concorrido nesta categoria. Gerou duas continuações inferiores, mas de relativo sucesso, séries animadas, jogos, uma famosa peça musical na Broadway que está em cartaz desde 1997 e um filme live-action que está em pré-produção, para estrear em 2018 ou posteriormente. O que levou a este sucesso todo?



São vários os fatores que levam a um sucesso à prova de crítica e do tempo. Começando pelo roteiro, que bebeu de várias fontes para contar a história. Pouca gente sabe, mas O Rei Leão veio da junção de diversas histórias. A primeira seria a obra 'Hamlet' de Shakespeare, onde um irmão invejoso usurpa o trono do Rei e o príncipe precisa lutar para tomar seu trono de direito. Outra fonte foi o mangá e animação japonesa (anime) dos anos 60 Kimba, O Leão Branco, onde mostra o leão Kimba tentando reinar a selva após perder sua família. O anime é tido como obra-prima japonesa, pioneira neste tipo de desenho, foi responsável por ajudar a trazer animações orientais para as Américas e foi o primeiro seriado animado colorido da história do Japão. Também é lembrado como uma animação triste e um tanto adulta e violenta. A terceira fonte de inspiração seria a jornada de Moisés, da Bíblia, que retornou ao Egito para libertar seu povo, mesmo se sentindo despreparado. E a última inspiração seria José, também da Bíblia, que é traído pelos irmãos e vendido como escravo, onde chegou no Egito e lá se destacou como homem de confiança. Futuramente ele perdoou e ajudou sua família em um momento de crise na nação. Trazendo elementos de todas estas fontes, a equipe de roteiristas tornaram esta animação em uma história forte e de grandes lições.

Já na abertura, temos uma das mais belas sequências iniciais de toda sétima arte, com os animais caminhando rumo a Pedra do Rei, onde o filhote e herdeiro será apresentado. A canção Ciclo da Vida não é apenas bela, mas estabelece a principal mensagem do filme. É algo realmente inesquecível. Conhecemos assim o belo reino de Mufasa, que acaba de ter seu filho Simba e começa a ensinar a ele as lições e responsabilidades que o cargo de Rei incluem. Conhecemos o invejoso Scar (cicatriz em inglês, pela marca que ele tem no olho), irmão de Mufasa e que arquiteta roubar seu trono. Ele tem um exército de hienas e as rege com leis semelhantes ao nazistas, inclusive numa cena musical onde elas marcham e ele canta uma maldosa melodia, exalando superioridade. Após o plano em ação e a tragédia feita, o antes corajoso, irresponsável e um tanto egoísta Simba agora está à beira da morte no deserto. Até ser salvo e adotado por Timão e Pumba, que lhe ensinam a viver sem preocupações e Hakuna Matata. Mas ao encontrar sua amiga de infância Nala, se apaixonar por ela e saber que o povo sofre, Simba precisa achar o equilíbrio para libertar seu povo. Mas como fazer isso se o passado dói e ele acredita ser o responsável pela morte do pai?



Com um enredo desses, é até difícil pensar ser um filme infantil. Mas o que suaviza a trama e garante a atenção das crianças é o belíssimo colorido da animação, com esboços tão bem desenhados pela equipe artística que em momentos parece a savana de verdade. As paisagens e a fotografia enchem o olhos, as várias espécies de animais tem movimentos realistas, resultado de anos de estudos onde os artistas observaram o comportamento dos animais. A cena da debandada dos gnus demorou 3 anos para ser terminada, mas teve um resultado marcante, com dezenas de gnus correndo, suas sombras no chão, poeira levantando e um desfecho marcante. As belas canções escritas por Elton John e Tim Rice agradam tanto as crianças quando mais divertidas; quanto também emocionam a adultos em melodias mais profundas. A inesquecível Can You Feel the Love Tonight não apenas ganhou o Oscar, como faz parte das mais memoráveis canções dos anos 90, está em qualquer playlist da época. A já comentada canção da abertura Cicle of Life é poética e cheia de interpretações dentro e fora do filme. Hakuna Matata é contagiante, se tornou um ícone pop e te faz querer celebrar a vida. Junto destas músicas, a trilha sonora de Hans Zimmer causa impacto, emociona e torna o filme uma experiência sonora à parte. Além de certos momentos das faixas trazerem elementos sonoros típicos da África. Sem falar que Timão e Pumba é a dupla de coadjuvantes mais carismática e amada de todos os tempos. Suas piadas funcionam e nos importamos com eles devido ao seu bom coração quando adotam Simba.

A direção de Roger Allers e Rob Minkoff é ágil, eles conseguem fazer enquadramentos de câmera e plano-sequências incríveis, algo difícil nesse tipo de animação. As tomadas aéreas dão uma ampla sensação de espaço, parecendo que estamos realmente no coração da África. Na sequência dos gnus, temos antes uma criação de suspense. Os diálogos entre Scar e Simba, o silêncio, a sensação de que algo ruim está para acontecer; direção e roteiro trabalham para nos deixar aflitos e preocupados com o que estar por vir, e então acontece destruindo nossos corações. Sim, a morte de Mufasa é uma daquelas cenas que marca (como se brinca, destrói) a infância de muita gente. Foi toda uma geração que pela primeira vez, teve contato ou consciência da morte. A Disney não teve medo de inserir esta lição e conceito, que a morte faz parte do ciclo da vida. Em tempos hipócritas de politicamente correto, as animações e demais filmes pipoca hoje tentam esconder certos conceitos. Mas aqui, para termos uma melhor absorção da trama e seus ensinamentos, vemos um filhote chorar sobre o corpo do pai, levado a acreditar que a culpa é dele mesmo e por isso acaba fugindo, quase morrendo. Esta cena devastadora causa um impacto emocional mesmo hoje e continua na memória.



Outro ponto interessantíssimo do filme é a mudança de caráter de Simba. Antes um jovem que só queria curtir e se tonar Rei por achar isso legal, agora tem peso na consciência e foge da responsabilidade. Os ensinamentos do macaco guia Rafiki ecoam para nossa vida real, quando ele ensina Simba que o passado pode doer e não há nada a fazer, exceto seguir em frente e aprender dele. Existem responsabilidades de que não podemos fugir, por mais que tragam alguma dor. Achar este equilíbrio de viver bem consigo mesmo (hakuna matata) e enfrentar o passado sem deixar seu propósito é o segredo. Há outros detalhes implícitos na animação. As hienas podem representar minorias marginalizadas sem apoio da sociedade como latinos e negros. Muitos falam sobre Timão e Pumba serem um casal gay que adotam uma criança. Embora em tempos de representatividade LGBT isso possa fazer sentido, o intuito da Disney na época era que eles fossem apenas dois amigos ajudando um filhote. Isso fica mais evidente quando percebemos que na verdade é Scar que apresenta traços dissimulados e afetados. Naquela época a Disney implicitamente colocava vilões com características gays para pregar às crianças que era algo errado. Vide Pocahontas, Aladdin, A Pequena Sereia, etc. Polêmicas à parte, a construção de Scar, com um jeito dissimulado, características assustadoras e expressões fortes tornam ele um dos grandes vilões do cinema. A cena em que ele pula entre as chamas na luta final, mostra uma feição quase demoníaca, tornando-o o mal em forma de leão.

Apesar de toda tragédia e da complexidade psicológica que a trama traz, no fim temos o esperado desfecho feliz. Afinal estamos falando de uma animação Disney. A batalha final, o Rei legítimo subindo ao trono, a redenção, a descoberta do verdadeiro causador da morte de Mufasa, a chuva lavando o fogo e as cinzas de uma terra já sem vida; tudo representa um reinício, o ciclo da vida conclui um estágio para começar um novo ciclo. O nascimento do filhote de Simba e Nala é a última cena, igual à primeira no nascimento de Simba. É poético, é reconfortante, a vida dá um jeito de voltar ao que deve ser. Basta aprendermos com as lições que era dá. São mensagens universais, que por 22 anos ensina as crianças e os adultos de todo mundo. O Rei Leão é um destes filmes sagrados, intocáveis, no panteão dos melhores já feitos. Forte, emocionante e uma obra de valor inquestionável. Marcou os corações de pequenos e grandes cinéfilos. Em tempos perdidos como os de hoje, obras como essas ajudam a nos lembrar de nunca desistir, de lutar, de aceitar coisas que não podemos mudar, mas também a aprender com isso e continuar em frente, conquistando nosso lugar.

"Olha para dentro de ti mesmo. És mais do que aquilo em que te tornaste. Deves tomar o teu papel no círculo da vida."






Título Original: The Lion King

Direção: Roger Allers e Rob Minkoff

Elenco: James Earl Jones, Matthew Broderick, Jeremy Irons, Nathan Lane, Ernie Sabella, Moira Kelly, Robert Guillaume, Rowan Atkinson, Whoopi Goldberg.

Sinopse: Mufasa (James Earl Jones), o Rei Leão, e a rainha Sarabi (Madge Sinclair) apresentam ao reino o herdeiro do trono, Simba (Matthew Broderick). O recém-nascido recebe a bênção do sábio babuíno Rafiki (Robert Guillaume), mas ao crescer é envolvido nas artimanhas de seu tio Scar (Jeremy Irons), o invejoso e maquiavélico irmão de Mufasa, que planeja livrar-se do sobrinho e herdar o trono.



Trailer:









Canções:





Cicle of Life dublada em português:





Cicle of Life original em inglês:









Hakuna Matata dublada em português:






Hakuna Matata original em inglês:







Be Prepared dublada em português:







Be Prepared original em inglês:







Can You Feel the Love Tonight dublada em português:







Can You Feel the Love Tonight original em inglês:







Galeria de imagens:
















E você, também foi marcado por esta animação? Concorda que 'O Rei Leão' é um grande filme? Não deixe de comentar:


O Vigilante da Noite

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