Crítica: Solaris (1972, de Andrei Tarkovski)


Ao grande público, são famosas as ficções científicas americanas e mais comerciais, que em muitos casos são excelentes, como Inception e Matrix. Em muitos casos são filmes bons, porém com problemas, como Interstellar e Perdido em Marte, mas é um gênero que cada vez mais têm perdido a força. Não se fazem mais filmes tão ousados como Blade Runner, 2001 - Uma Odisséia No Espaço, Alien: O Oitavo Passageiro ou este filmaço de Andrei Tarkovski que falarei sobre, Solaris. Quanto aos atuais filmes, podemos esperar que Arrival, que será lançado nos próximos dias, seja um filme que ajude o gênero à ganhar mais força. Quanto aos clássicos que citei, podemos apenas agradecer os deuses do cinema por eles e, é claro, assistí-los.




Andrei Tarkovski é a mente por trás do roteiro e da direção. É um trabalho muito complexo, pois o filme lida com temas muito relevantes e profundos. É um belo estudo de filosofia, por exemplo. Tarkovski não tem preocupação nenhuma em fazer o filme ficar acessível ao grande público. Há algumas cenas que parecem até filmes que mostram apenas imagens, como Koyaanisqatsi. Há uma cena que mostra apenas carros por vários minutos (que, aliás, conta com um belíssimo corte no final que mostra a diferença da vida urbana, corrida, para a vida na mata, monótona, mas, ao mesmo tempo, muito mais satisfatória). O filme definitivamente não é para o grande público, e nem mesmo todos os cinéfilos irão gostar, muitos vão achar chato. Em alguns momentos, pode até parecer um filme experimental por causa de longos takes de árvores ou a mudança brusca da fotografia colorida para preto e branco, mas Tarkovski sabia exatamente o que estava fazendo.



Tecnicamente, a direção de Tarkovski é excepcional. Ele alonga alguns planos que não precisariam ser tão longos, mas, quanto maiores os planos, maior a imersão do espectador. Alguns desse planos, aliás, são gigantescos, com quase 10 minutos de duração. O diretor sabe exatamente do que o filme precisa. Ele tem o senso perfeito de quando mover a câmera e quando deixá-la estática, e o jogo de câmeras usado por ele é muito inventivo, os ângulos não são nada convencionais.



O roteiro do filme é outro ponto fortíssimo. Ele é profundo, filosófico e sensível. Também pode abrir muitas interpretações. Eu mesmo acredito fortemente que o filme é uma metáfora sobre como a saudade, a perda e o isolamento podem destruir a mente humana. Eu vi uma crítica onde é dito que a trama é apenas o fio condutor para a atmosfera e a filosofia do filme, e eu não poderia concordar mais com isso. Atmosfera, aliás, que é uma das melhores coisas da produção. É um dos filmes mais imersivos que eu já assisti. O roteiro não é nem um pouco expositivo, não subestima a inteligência do público e o deixa tirar suas próprias conclusões sobre os sentimentos dos personagens, o que é excelente, e, pra mim, o que falta nas produções mais recentes do gênero. Interstellar, por exemplo, é um filme quase arruinado para mim por causa de suas explicações forçadas.



O filme é dividido em duas partes. A primeira serve como uma localização para o espectador e apresentação do personagem Kris, e a segunda é um estudo de personagem do mesmo. E, por melhor que seja o roteiro, o filme não seria tão bom se não fosse pela atuação de Donatan Banionis. Ele constrói um personagem que se apresenta durão, mas é muito profundo e tem muitas camadas. O ator passa todas as emoções do personagem perfeitamente, seria impossível tirar algo melhor do material. Eu gostei muito da dúvida que o personagem de Jüri Järvet cria. Ele parece uma pessoa boa, mas você vive questionando se o personagem é realmente aquilo que aparenta. A melhor atuação do filme, porém, é de Natalya Bondarchuck. Ela interpreta a personagem mais difícil do filme. Nenhum dos personagens tem totalmente certeza do que ela é, e ela passa por coisas muito difíceis durante a projeção. A atriz dá um show de interpretação e rouba a cena.



Os aspectos técnicos do filme são perfeitos. A fotografia é muito bonita (principalmente na primeira parte), a edição de som é perfeita, a trilha sonora é sensacional, a edição é muito inteligente e não chamativa, você não nota a maioria dos cortes, eles são feitos muito sutilmente e a direção de arte ajuda muito na imersão tão bem feita e já citada. O filme também tem algumas falas que ficam na cabeça do espectador por muito tempo, nos fazendo pensar sobre vários assuntos, mas, acima de tudo, a fé e a natureza humana.



O ritmo do filme é lento, e ele foi pensado assim. Na primeira parte, o ritmo não pesa, e a maioria da segunda parte também passa rápido, mas perto da metade da segunda parte o ritmo começa a ficar lento demais e isso incomoda. Outra coisa interessante é que, apesar do diretor Andrei Tarkovski falar mal sobre 2001 - Uma Odisséia No Espaço e dizer que não gosta, há algumas composições visuais no filme que são praticamente iguais ao filme de Stanley Kubrick.



Solaris é um filme filosófico, interessante, reflexivo, clássico, revolucionário de certas maneiras, muito bem dirigido, muito bem roteirizado, fotografado, editado, montado, a trilha sonora é excelente, o filme fica na cabeça, incita à pensar e, acima de tudo, é profundo. Um dos melhores filmes de ficção científica que eu já vi na vida. Para qualquer fã do gênero e de cinema em geral, é um filme necessário.


Título Original: Солярис

Direção: Andrei Tarkovski

Elenco: Natalya Bondarchuck, Donatas Banionis, Jüri Järvet, Vladislav Dvorzhetsky, Nikolai Grinko, Anatoli Solonitsyn

Sinopse: Solaris é um planeta distante, que vem sendo constantemente estudado há décadas, e cujo mistério sobre seu oceano ainda não foi esclarecido, nem seus efeitos. Por falta de interesse e resultados, a solarística está morrendo; aliado a isto, os membros na estação espacial que orbita o planeta estão sendo afetados pelo oceano. Por conta disto, o psicólogo Kelvin - conhecido de um dos doutores da solarística e amigo de um dos tripulantes - é mandado para a estação averiguar a situação. Lá, ele percebe aos poucos que Solaris é, mais que um planeta, um espelho da alma.


TRAILER:




E você, já assistiu à este clássico? O que achou? E tem esperanças para o futuro do gênero da Ficção Científica? Deixe aqui seu comentário.

Luis Gustavo Schuh Bocatios

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