Crítica: Um Clarão nas Trevas (1967, de Terence Young)


Um Clarão nas Trevas, no original Wait Until Dark, é baseado na peça homônima de Frederick Knott, também autor da peça Disque M Para Matar, que já havia sido adaptada para o cinema em 1954, com roteiro seu e direção de Alfred Hitchcock. O filme tem direção de Terence Young, conhecido pelo sucesso dos primeiros filmes da franquia James Bond.


Um Clarão nas Trevas: O tormento de não saber como vai terminar.




Durante as primeiras cenas acompanhamos a viagem de uma mulher que está carregando uma boneca cheia de drogas, mas ao chegar a seu destino, com medo de ser pega, ela entrega o brinquedo a um homem com quem viajava no mesmo avião prometendo entrar em contato para recuperá-lo. Interessado em reaver a boneca, o misterioso Roat (Alan Arkin) arranja um encontro com uma dupla de bandidos, Mike Talman (Richard Crenna) e Carlino (Jack Weston), a fim de criarem uma história para enganar a esposa desse homem, e fazer com que ela entregue o brinquedo, sem suspeitar de suas reais intenções.

Audrey Hepburn é Susy Hendrix, a esposa cega de um fotógrafo, Sam Hendrix (Efrem Zimbalist Jr.), que faz de tudo para torná-la mais forte e segura, deixando que ela cuide sozinha, ou ao menos sem tanto auxílio, dos pequenos obstáculos cotidianos que se apresentam a ela. Ela, no entanto, se mostra um tanto insegura de estar sem ele, ainda mais quando o corpo de uma mulher é encontrado próximo à vizinhança, o que a faz sugerir – embora seja apenas um artifício para que ele não saia naquela noite – o perigo de deixá-la sozinha em face dos últimos acontecimentos.



O fato dela ser cega é um prato cheio para eles, que usam disfarces, inclusive da voz, para envolvê-la na história que contam, e embora consigam perturbá-la com a possibilidade de seu marido estar envolvido com um crime e que a boneca seja a prova, tudo isso esbarra na sua lealdade e no fato de conhecer o homem com quem convive, sendo natural que em vez de entregá-lo, procure protegê-lo, ao menos até ter uma noção do que é realmente verdade.

E, se a história que haviam lhe contado, a fim de fazê-la entregar a boneca, já a deixara aflita, quando ela começa a reconhecer algo estranho no comportamento dessas pessoas, com quem tem interagido nas últimas horas, entra ainda mais em pânico, pois, sozinha e sendo vigiada por eles, terá que achar uma maneira de sair ilesa da armadilha.




Young, conhecido por ter ensinado Sean Connery a se comportar como James Bond, dando assim o tom da personagem daí em diante, fez de Um Clarão nas Trevas um filme bem ensaiadinho, algo que fala muito sobre seu método de condução, e esse é um ponto interessante de observar considerando que esta é uma adaptação de uma peça teatral. A história é acompanhada em dois grandes planos de ação que interagem e se complementam para nos mostrar o todo, e sob todos os pontos de vista que nos são permitidos, conforme o grau de importância e o papel de cada personagem naquele contexto. E é com a construção gradativa da tensão, dividida entre esses planos, que é preparado um desfecho mais intenso e cheio de incertezas.

O cenário principal, e quase que cenário único não fosse pelas cenas iniciais, é o apartamento do casal e seus arredores, e passamos tanto tempo em seu interior que é como se o conhecêssemos na intimidade, nos detalhes da planta da casa, tão bem quanto Susy conhece através dos passos o espaço que habita, ou os bandidos por ter que verificar cada canto repetidas vezes. E durante esse trânsito habitual, que se une ao trânsito incomum que vem de encontro a ele, vemos o seu lar se transformar em um território totalmente desconhecido, ameaçador, e incapaz de protegê-la de possíveis inimigos, quando ela se dá conta já não está mais a salvo.





Audrey se sai muito bem no papel, inevitavelmente doce como de costume, ela mergulha na escuridão para deixar a carne exposta, com todos os medos de Susy gravados nela, nesse filme seu nome é quase Angústia. Com os sentidos à flor da pele, contando apenas com seu instinto de sobrevivência, e tendo suas limitações somadas aos esforços da gangue para encurralá-la, sua vontade de conseguir superar tudo isso apenas para poder estar mais uma vez nos braços da pessoa que ama torna a mocinha a nossa eleita, pois cada pequeno golpe que sofre tem um efeito devastador, e é difícil não se identificar com seu sofrimento.

A cegueira, que é tida como uma aparente barreira, torna-se um trunfo para Susy, uma vez que sendo considerada inofensiva e fácil de manipular, pode usar sua perspicácia para driblar os avanços daqueles que a ameaçam. Contando com a ajuda de sua vizinha, a garotinha Gloria (Julie Herrod), que eventualmente assume o papel dos seus olhos para lhe ajudar a confirmar suas suspeitas, e que, embora pudesse ser vista pelos bandidos, ajuda Susy sem que eles percebam, em um dos vários jogos simbólicos utilizados no filme.

"Quem não é visto não é lembrado" é apenas uma das máximas usadas simbolicamente no filme.
Há em tudo uma dualidade, e simbolicamente é sempre lembrado como as aparências enganam, a começar pela boneca, que ninguém iria imaginar que está cheia de drogas. Assim como ela, as personagens podem parecer confiáveis, ingênuas ou indefesas umas para as outras, contudo, apenas nos desfazendo dessas várias camadas superficiais que usam para esconder quem realmente são é que acabam por revelar sua força em várias cenas limite, pontuando o perigo de acuar alguém: Uma faca de dois gumes.

Entre as melhores cenas se destaca a dos objetos no chão, que demonstra como somos instigados a ser maus ao nos deparar com alguém que julgamos menor ou mais indefeso, e faz ver como nossas ações dependem mais do nosso caráter que das nossas emoções. Mas, acima de tudo o acompanhamento das crescentes suspeitas e suas confirmações, da angústia que leva à 'cena da virada', em que Susy decide entrar no jogo e até mesmo dá as cartas, e daí para o final estão os momentos mais representativos.

Longe de Holly Goligthly, Audrey Hepburn vive momentos de tensão como Susy Hendrix.
É interessante perceber como cada personagem lida com a cegueira, e principalmente com a visão. Embora Susy não enxergue percebe o que está acontecendo à sua volta, enquanto que os invasores permanecem tão focados em seu objetivo que deixam muitas pontas soltas ou não se dão conta de que o jogo pode virar. E esse é talvez um dos grandes sucessos do filme, em se tratando de um suspense, conseguir transmitir essa noção de que não importa de quem seja o plano, tudo pode dar errado.

E é justamente nesse ponto que Young nos presenteia com a grande incerteza do que vai acontecer no fim, nos colocando em face da maldade de Roat, que consegue ser um vilão muito interessante sem roubar a atenção para si, porque simplesmente não dá para torcer por ele. Grande crédito para o trabalho de Alan Arkin nesse quesito, distinguindo uma boa atuação e uma boa personagem de um comportamento intolerável em sociedade. O encontro entre Susy e Roat é excepcional, marcando os momentos finais com um clima de tensão que passa de uma personagem à outra, conforme cada um tenta assumir o controle da situação, enquanto ficamos sem saber o que esperar no próximo instante.





*Apesar da escolha das fotos, o filme é a cores.




Título Original: Wait Until Dark

Direção: Terence Young

Elenco: Audrey Hepburn, Alan Arkin, Richard Crenna, Jack Weston, Efrem Zimbalist Jr., Samantha Jones, Julie Herrod.

Sinopse: Dona de casa, cega há pouco tempo, se encontra em apuros quando passa a fazer parte de uma trama de mentiras, armada para que três bandidos encontrem uma boneca usada para transportar heroína.


Trailer:



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