Especial: Decifrando a sequência #1 (O Pianista, de Roman Polanski, 2003)



O Cinema é uma arte essencialmente visual. Foi através da necessidade de conceber uma linguagem própria, se afastando da lógica teatral, que suas convenções foram estabelecidas, e mais, consolidadas como únicas. Por essa razão ganhou o status de Arte, chamada de “sétima”, vindo após a Música, Dança, Pintura, Escultura, Literatura e Teatro. A partir do momento em que os primeiros cineastas da história perceberam que não eram obrigados a manter o quadro estático (como a visão do palco no teatro) e que podiam aproximar e movimentar a câmera, descobriram a narrativa cinematográfica: é possível contar histórias inteiras apenas com sequências de imagens. É necessário lembrar ainda que o som, até o final da década de 20, não existia no cinema (as trilhas eram executadas ao vivo), e ele definitivamente não impediu que grandes obras-primas fossem concebidas e que a linguagem básica que conhecemos hoje já fosse estabelecida antes do primeiro filme falado.


Essa introdução é importante porque anuncia um princípio que ainda hoje é válido para qualquer bom filme: use as ferramentas do cinema para “mostrar”, e não “contar”, isto é, narre sua história através da câmera, dos enquadramentos, dos movimentos e da montagem. Não explicite num diálogo expositivo o que é perfeitamente possível visualizar na tela, ou como dizia Alfred Hitchcock, que citarei novamente neste blog:


 “Os diálogos deveriam ser simplesmente sons entre outros sons do filme que saem da boca dos personagens cujos olhares e expressões é que contam a verdadeira história”.

Hitchcock se referia ao uso desnecessário da exposição no diálogo. Sabemos que depois se tornou uma ferramenta poderosa para desenvolver personagens, estabelecer relações entre eles, causar reflexões que seriam impossíveis de se mostrar. Mesmo assim, mensagens belas e poderosas podem ser transmitidas para o espectador sem usar nenhuma fala.

E aqui chegamos ao exemplo de uma determinada sequência de O Pianista, uma das obras-primas da carreira de Roman Polanski, vencedor da Palma de Ouro em Cannes e Melhor Diretor no Oscar. Recomendo que se assista ao filme, pois o peso dramático da cena depende bastante de se conhecer a trajetória do protagonista até ali. Se não for possível, ainda assim convido o leitor a assistir à sequência enquanto tento mostrar porque ela é tão bela e significativa. (O caráter de spoiler é baixo, pois dificilmente atrapalhará a experiência de todo o filme, mas fica o aviso assim mesmo).

Neste momento da história, o pianista polonês Wladyslaw Szpilman (papel que rendeu prêmio principal para Adrien Brody no Oscar e em Cannes) vinha fugindo durante bastante tempo da violenta ocupação nazista e do extermínio de seu povo durante a Segunda Guerra Mundial. Depois de passar por diversas provações psicológicas e físicas, chegando a ficar esquelético e doente de fome, encontra um prédio abandonado onde pode se esconder durante algum tempo. Até aquele momento, o espectador já está completamente investido na triste história de Szpilman e torce profundamente para que ele se dê bem. 

Num certo momento em que tentava abrir uma lata de picles que havia encontrado no lugar, dá de cara com um oficial alemão, em pé, o encarando, como se pegasse uma criança no flagrante. É a primeira vez que ele se encontra cara a cara com um nazista depois que começou a fugir. Já temendo imensamente por sua vida, ele explica que trabalhava como pianista profissional numa rádio de Varsóvia. Sem poder esboçar qualquer reação, segue respondendo as perguntas. Para sua surpresa, o oficial aponta um piano na sala abandonada do local e manda que Szpilman toque alguma coisa.

A sequência


No início, vemos o sujeito hesitando levemente em tocar o instrumento, pois ainda está sob grande ameaça do oficial, ressaltada pelo quepe e sobretudo postados em cima do piano durante toda a cena. Nota-se também a luz que incide no rosto e nas mãos vacilantes de Szpilman, que ganhará mais expressividade ainda posteriormente.


A partir de 44 segundos do vídeo, acompanhamos o oficial se movendo lentamente e se sentando em uma poltrona da sala enquanto ouve a música. É um momento de grande realização dramática no filme. Vemos na expressão do oficial que ali existe um grande peso em sua história, exibindo, ainda que uma dureza, certa tristeza no olhar. Nenhum diálogo é dito durante o tempo todo. É a primeira vez que vemos este personagem. Quem ele é? O que aconteceu com ele até ali? O que ele está pensando? Não é necessário jamais que saibamos diretamente as respostas. É bem possível presumir que ali está um homem igualmente esgotado, ainda que só psicologicamente, com a guerra. Mas o mais importante é que essa parte do filme tem uma grande função na história: humanizar a figura do “vilão” nazista. Ainda que tenha tomado parte no horror cometido por seu exército, existe ali um indivíduo com capacidade para se emocionar com a música, e através dela, é capaz de ver também humanidade na figura deplorável de Szpilman.


E o próximo corte nos mostra sua visão do homem ao piano. A partir de 1:22, temos um dos planos mais bonitos da carreira de Polanski e que, inclusive, acabou se transformando em um dos cartazes do filme. É uma daquelas cenas que se pode facilmente emoldurar como quadro numa exposição. A belíssima fotografia produz uma aura quase mágica em cima da figura de Szpilman em contraste com o ambiente meio lúgubre, e ainda justifica o efeito que produz anteriormente no oficial.


No minuto 2:00, Szpilman começa a aumentar o ritmo de sua interpretação musical. Sua respiração se torna mais evidente pela fumaça. A música vai se tornando mais forte e energética. Depois de muito tempo sob sofrimento constante, o protagonista finalmente se solta emocionalmente, praticamente ignorando a presença ameaçadora do oficial, que quase não consegue disfarçar seu assombro. Estamos acompanhando um momento emocionalmente significativo na vida desse personagem, mesmo sem tê-lo visto antes. 

No final da sequência, Wladyslaw Szpilman atinge seu ápice emocional, assim como o clímax da Balada de Chopin em G menor. Quando vemos suas mãos estremecerem ao final da canção, no minuto 04:15, fica clara a grande descarga emocional despejada em cima do espectador e do oficial.


É uma bela sequência com um grande apuro estético e dramático. Há beleza e esperança, mesmo que em tom melancólico, em meio ao clima pesado que se estabeleceu durante todo o filme. Sem necessidade de diálogo, entendemos que ali se juntaram duas figuras diferentemente atingidas pelas circunstâncias, e o filme não se apressa em julgá-las. O Pianista é um belíssimo filme, que apesar de nos contar uma terrível história de nossa humanidade, permite que possamos admirar suas imagens e, o mais importante, refletir sobre elas.

O verdadeiro Wladyslaw Szpilman.




Título Original: The Pianist

Direção: Roman Polanski

Elenco: Adrien Brody, Thomas Kretschmann, Emilia Fox, Ed Stoppard

Sinopse: O pianista polonês Wladyslaw Szpilman (Adrien Brody) interpretava peças clássicas em uma rádio de Varsóvia quando as primeiras bombas caíram sobre a cidade, em 1939. Com a invasão alemã e o início da 2ª Guerra Mundial, começaram também restrições aos judeus poloneses pelos nazistas. Inspirado nas memórias do pianista, o filme mostra o surgimento do Gueto de Varsóvia, quando os alemães construíram muros para encerrar os judeus em algumas áreas, e acompanha a perseguição que levou à captura e envio da família de Szpilman para os campos de concentração. Wladyslaw é o único que consegue fugir e é obrigado a se refugiar em prédios abandonados espalhados pela cidade, até que o pesadelo da guerra acabe.


Trailer



E você, assistiu a este que é um dos filmes mais fortes e expressivos sobre o Holocausto? Deixe seu comentário.

João Rafael

Estudante de Engenharia Civil no UniCeub e de cursos de Cinema avulsos que forem aparecendo pela frente. Sempre interessado em discutir os as causas e consequências da Sétima Arte.

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