Crítica: Blue Jay (2016, de Alexandre Lehmann)



Qual é o momento na sua vida em que você começa a se dar conta dos efeitos irremediáveis do tempo? Dificilmente será nos primeiros anos de vida ou durante a adolescência. É certo que haverá um momento onde você vai começar a entender que aquela frase que você sempre escuta de alguém que você julgou velho, “é que no meu tempo...”, ganhará um significado melancólico. Haverá este momento em que você vai perceber que o seu passado, o qual julgava recente, está sendo retratado nas artes como uma “outra época” ou “outra geração”. Pode acontecer ao ver uma foto antiga onde você parece outra pessoa, ou quando se der conta que já fazem 15 anos do lançamento de um filme que foi uma sensação absurda na sua época (no meu caso, O Senhor Dos Anéis – A Sociedade Do Anel), ou também quando você encontrar, totalmente por acaso, alguém que fez parte da sua vida há muito tempo e, no processo, perceber que este alguém também está no mesmo caminho que o seu. É nesta última hipótese que a produção original da Netflix, Blue Jay, estabelece sua base para estudar o reencontro de duas pessoas que compartilharam um passado, assim como mostrar as consequências da passagem do tempo na vida do ex-casal.


Dirigido pelo estreante Alexandre Lehmann, o filme começa com o encontro casual de Jim (Mark Duplass) e Amanda (a maravilhosa Sarah Paulson) num supermercado situado numa pequena cidade da Califórnia, onde há mais de 20 anos, foram namorados durante o Ensino Médio. O evento casual vai se tornando aos poucos uma viagem sensível e saudosista ao passado dos dois, revelando também que o tempo os transformou em figuras bem diferentes do que imaginavam quando jovens.


Escolhendo o preto & branco para situar visualmente sua história, Lehmann, também diretor de fotografia do longa, já estabelece o caráter melancólico que irá prevalecer durante todo o filme... e não poderia ser diferente. Nos instantes iniciais, enquanto acompanhamos os créditos de abertura, vemos Jim em sua casa enquanto parece tentar organizar a bagunça do local. Nas paredes, as fotos de um então jovem bonito que parecem contrastar com o tom da abertura. E se nos primeiros instantes de interação com Amanda vemos um sujeito já demonstrando certa insegurança em iniciar uma conversa, nela podemos notar um alguém com um aspecto mais confiante. O choque momentâneo dos anos em que não mais se viram é a chama que cria um saudosismo que é, ao mesmo tempo, agradável e perigoso.

O roteiro, escrito pelo próprio Mark Duplass, é muito bem-sucedido ao apoiar toda a narrativa do filme no fato de que esta dualidade saudosista faz com que a reaproximação dos dois seja tão interessante de se acompanhar. Cada qual em seu tempo, os personagens vão se revelando incomodados com seus passados ao mesmo tempo em que ainda tentam manter uma certa dignidade como um instinto de autopreservação. Ao notar o olhar pesaroso e a facilidade de demonstrar emoção por parte de Jim, por exemplo, Amanda acaba se tornando um agente de um olhar superior sobre uma suposta vida fracassada de seu ex-namorado. É difícil não sentir uma ponta de pena quando acompanhamos Amanda, aparentemente mais bem-sucedida, visitando a casa solitária de um Jim que revela estar sem rumo tanto profissionalmente quanto pessoalmente.



Mas Duplass também se mostra inteligente ao inverter gradativamente a sensação de pena para uma constatação inevitável de que até Amanda foi, de alguma forma, também marcada psicologicamente pela passagem dos anos, como diz em certo momento e com um ar de triste justificativa: “Não há nada de errado com a minha vida. Eu deveria ser feliz. Mas há essa tristeza. E não sei de onde vem”. Esta sintonia acaba por transformar o reencontro dos dois numa viagem intimista e sensível pelos anos em que foram um casal de adolescentes e, não menos importante, num escape momentâneo para as frustrações de suas vidas particulares. 

Aliás, grande parte do poder do filme em despertar nossa simpatia por Jim e Amanda vem da segurança de seus intérpretes. Duplass sempre confere um constante ar misto de arrependimento, melancolia, bom humor e doçura. Assim como Paulson também é inteligente em manter a pretensa dignidade de Amanda inabalável por mais tempo que o parceiro. É difícil não sentir que houve verdadeiramente uma história entre os dois quando os vemos escutando uma gravação antiga de quando eram jovens e espirituosos, ou quando um revela para o outro, com um tom de cautela, quais os caminhos que cada um tomou na vida.


Blue Jay talvez seja uma obra que não atinja quem é jovem demais. Não se trata de um orgulho bobo de achar que a nostalgia de sua geração é melhor do que da próxima, mas apenas uma constatação direta que cada pessoa está fadada a fazer um dia.

E como dito anteriormente, embora seja agradável relembrar o passado, este traz o preço irremediável de tornar nossas angústias ainda mais reais e profundas. O perigo é a inevitável realização de que nunca estaremos totalmente preparados para lidar com a dureza impessoal do tempo, mas, assim como Jim e Amanda, talvez um mergulho no passado seja necessário para entender os anos que teremos pela frente. 




Título Original: Blue Jay

Direção: Alexandre Lehmann

Elenco: Sarah Paulson, Mark Duplass, Clu Gulager

Sinopse: Quando estão retornando para sua pequena cidade natal na Califórnia, dois ex-namorados (Mark Duplass e Sarah Paulson) do ensino médio se encontram por um acaso. Os dois lembram do passado que compartilharam e passam a refletir sobre ele, levando em conta suas vidas atuais, que parecem não serem satisfatórias para eles.

Trailer


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João Rafael

Estudante de Engenharia Civil no UniCeub e de cursos de Cinema avulsos que forem aparecendo pela frente. Sempre interessado em discutir os as causas e consequências da Sétima Arte.

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