Crítica: Moonlight - Sob a Luz Do Luar (2016, de Barry Jenkins)

Um presente para quem gosta de cinema. Essa é a melhor maneira de descrever este filme.

Moonlight é dirigido pelo desconhecido - mas talentosíssimo - Barry Jenkins. Ele mostra ter um grande domínio de câmera e mistura vários recursos aqui: a mistura de planos estáticos e marcantes com a câmera na mão característica do cinema independente e cortes rápidos. O diretor usa um belíssimo plano no começo do filme aonde mistura um tracking shot com um travelling, um jogo em 360 graus e um plano longo fechando a cena. Ele constantemente faz planos de Chiron sozinho na tela - o que serve para mostrar o quão isolado é o personagem em relação a sociedade. É um trabalho excepcional do diretor. Acho a provável indicação dele ao Oscar mais que merecida e estou ansioso para assistir a seus próximos trabalhos. Vamos ouvir falar muito nesse nome nos próximos anos.


O roteiro - também de Jenkins - é de uma precisão e eficiência extrema. Há muitas metáforas aqui. É um roteiro inteligente em deixar claro o que ele pretende. O filme é dividido em três atos: o primeiro é na infância, quando o protagonista é chamado de Little, o segundo é na adolescência, quando é chamado de Chiron, e o último na idade adulta, quando é chamado de Black. Isso deixa uma mensagem clara de como as pessoas mudam conforme o tempo passa, mas o coração e a alma sempre serão os mesmos, não importa o que aconteça.



No primeiro ato (que me lembrou brevemente o excepcional Cidade De Deus, de 2002), somos apresentados ao personagem Juan, um traficante de drogas que conhece Little e se torna um ombro amigo para o menino. Em alguns momentos, me parece até que é uma figura paterna para Little. Esse ato é a apresentação do protagonista e de todos os seus problemas para o público. O segundo ato é o mais pesado do filme; ele mostra as primeiras experiências sexuais de Little - agora Chiron - e o enorme preconceito sofrido pelo protagonista. É interessante ver que o diretor e roteirista - mesmo sendo negro - faz questão de mostrar que alguns negros são muito mais racistas do que brancos. O terceiro ato mostra que tudo o que acontece na formação do seu caráter vai ser uma parte importante de sua vida adulta.



É um roteiro muito sensível, que trata de temas como o preconceito, o crescimento, o amadurecimento e o vício em drogas e como isso afeta as pessoas ao seu lado. Há uma cena extremamente realista aonde o traficante Juan confronta a mãe de Little por que ela está usando drogas - vendidas por ele - quando deveria estar cuidando de seu filho. Isso lembra como nós vivemos em uma sociedade hipócrita, que impõe regras de como as pessoas deveriam se comportar sendo que tem uma grande participação no motivo desse comportamento - que teoricamente seria o ideal - não ser o padrão. Uma das minhas cenas preferidas do filme é quando um personagem tenta se provar como ''machão'' para Chiron, mas acaba sendo o que tem as primeiras relações com ele. Isso reflete muitas pessoas no mundo real que tentam esconder a sua sexualidade dentro de um estereótipo ''pegador'', seja por vergonha de si mesmo ou por medo da reação de seus ''amigos'' ou familiares.



Um detalhe que eu gostei muito é que, na maioria das produções de Hollywood, os ''valentões'' da escola são tratados como pessoas engraçadas e que fazem apenas piadinhas. Aqui não, eles perturbam a mente de Chiron e partem para uma violência física - sem motivo nenhum - que quebra o coração do espectador por tamanha injustiça.



É um roteiro extremamente bem escrito. Ele mostra como algumas pessoas podem chegar em nossas vidas, deixar suas marcas e sair de repente, sem deixar uma mensagem de despedida e é extremamente triste em passar para o espectador o quanto essas pessoas fazem falta, não para nos ajudar quando precisamos ou para cobrir algo errado que fizemos, mas o quanto nós sentimos saudade dos momentos que passamos com ela.


As atuações são um ponto fortíssimo do longa. Três atores interpretam o protagonista. São eles: Alex R.Hibbert, que o encarna com uma sensibilidade impressionante para um ator de sua idade. O ator consegue fazer você simpatizar com Little mesmo com um número mínimo de falas. Ashton Sanders tem a tarefa de interpretar Chiron no momento mais difícil de sua vida - e de modo geral, de todas as pessoas: a adolescência. O ator se destaca como o melhor entre os três intérpretes do protagonista. As melhores cenas do filme são com ele, ele convence perfeitamente e você se emociona em várias das cenas dele em tela. Trevante Rhodes interpreta Black já maduro e com muitas sequelas do que aconteceu com ele na infância - embora ele pareça ter superado alguns daqueles traumas. O ator faz um ótimo trabalho e tem algumas cenas que são muito emocionantes - eu me peguei a ponto de chorar algumas vezes.



Todos do elenco coadjuvante estão bem: Janelle Monáe está muito bem como uma espécie de alento para Chiron, Jharrel Jerome interpreta perfeitamente um personagem com mais de uma camada e André Holland consegue seguir o estilo imprimido por Jerome sem uma falha sequer, mas há dois claríssimos destaques aqui: Mahersala Ali consegue fazer você sentir empatia por um traficante, mas tem a habilidade e a inteligência suficiente de deixar claro por meio de sua interpretação o quão más são algumas ações de seu personagem. É uma performance sutil e forte ao mesmo tempo. Ele vai com certeza ser indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante, e eu acho sim que ele tem boas chances de ganhar. A outra que chama atenção é Naomie Harris como a mãe de Chiron. Ela está espetacular no filme. Nos dois primeiros atos ela interpreta uma mãe irresponsável e viciada em drogas que é - possivelmente - a pior mãe do mundo. Mas ela ama seu filho, e isso fica claro em sua performance. Há uma cena no terceiro ato aonde ela conversa com Black sobre a relação deles e sobre como ela foi uma péssima mãe mas ama seu filho - e a frase em que ela diz que o ama mas ele não precisa a amar é uma das cenas aonde eu fiquei a ponto de chorar. Essa cena em particular mostra um peso na consciência da mãe que é de cortar o coração. É um trabalho espetacular de Harris. Eu torço muito para que a atriz seja indicada ao Oscar, é uma das minhas performances coadjuvantes preferidas do ano.



A fotografia chama a atenção por não usar recursos batidos, a edição de som funciona muito bem, os figurinos são ótimos e a montagem e a edição são perfeitas - assim como o final, que é bastante interpretativo e te deixa pensando por muito tempo sobre este lindo filme.

Em vários momentos o filme me lembrou o perfeito - e um dos meus filmes favoritos de todos os tempos - Boyhood, de 2014, do gênio Richard Linklater. Não só por seu tema, mas também por algumas cenas que lembram o longa de Linklater. Se você assistiu a Boyhood e assistir Moonlight, você vai saber das cenas que eu estou falando.



Moonlight é uma experiência ímpar. Poucas vezes eu vi algo assim no cinema. Como disse no início do texto, é um presente para os amantes da sétima arte no mundo todo. Eu não consigo achar nenhum defeito no filme - e pensei muito sobre ele. É definitivamente um dos melhores filmes do ano, e tem grandiosas chances na temporada de premiações. Não perca este filme.



Título Original: Moonlight

Direção: Barry Jenkins

Elenco: Trevante Rhodes, Mahersala Ali, Janelle Monáe, Naomie Harris, Andre Holland, Shariff Earp, Duan Sanderson, Alex R. Hibbert, Jaden Piner, Ashton Sanders, Edson Jean, Patrick Decile, Eddie Blanchard

Sinopse: Black trilha uma jornada de autoconhecimento enquanto tenta escapar do caminho fácil da criminalidade e do mundo das drogas em Miami. Encontrando amor em locais surpreendentes, ele sonha com um futuro maravilhoso.

TRAILER:














 

E você, já assistiu a Moonlight? Acha que o filme vai vencer a categoria principal do Oscar? E tem alguma chance nas categorias técnicas e de atuação? Deixe aqui seu comentário e muito obrigado por ter lido.




Luis Gustavo Schuh Bocatios

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