Crítica: Lion - Uma Jornada Para Casa (2016, de Garth Davis)



Se voltássemos no tempo e pudéssemos contar aos nossos pais, quando tinham nossa idade, que seria possível observar uma representação fotográfica bastante detalhada de qualquer lugar do planeta a partir de nossos telefones celulares, eles certamente pensariam se tratar de uma premissa de algum filme ou livro de ficção científica. Para o assombro daquela geração e para o costume da nossa, ela não só é possível quanto ainda é o mote para uma impressionante história real acontecida há alguns anos na Índia. 

Em 2013, o indiano Saroo Brierley lançou sua trajetória de vida num livro intitulado A Long Way Home, que conta como o próprio, aos 5 anos de idade, se perdeu da família numa província perto da cidade de Khandwa e acabou ficando perdido por algum tempo até ser adotado por uma família australiana. Hoje, em 2017, chega aos cinemas a adaptação chamada Lion – Uma Jornada Para Casa, que encena os principais acontecimentos envolvendo a jornada de Saroo, inclusive o determinante papel do software Google Earth na história. 



Pois é, o sistema de GPS global mais famoso do mundo teve papel determinante na história do pequeno indiano. Porém, o enredo deste longa não se limita exatamente à busca, que na verdade pode ser o momento mais problemático do filme, como discutirei mais adiante; ele também trata da apresentação do protagonista e de seu ponto de vista diante do universo gigantesco que o cerca. Para além da divisão usual de 3 atos, a narrativa apresenta 2 metades claramente distintas. Durante a primeira, podemos conhecer a trajetória inicial de Saroo, do momento em que o roteiro nos apresenta à sua vida e sua relação com a família, até quando se perde de seu irmão mais velho durante um trabalho que este tinha conseguido para ajudar a mãe e os irmãos.

Durante essa primeira parte, o roteirista Luke Davies consegue surpreendente eficiência em transpassar a confusão e o medo de Saroo sem que haja a necessidade de exposição por parte dos diálogos. Aqui também vale o bom trabalho de Davis em retratar o ambiente que, ao mesmo tempo gigantesco e imponente, também é amedrontador para a percepção de uma criança, como as tomadas em altura baixa deixam claro em nos passar a sensação de que estamos desorientados junto com o garoto.


Interpretado com grande carisma por Sunny Pawar, Saroo é um personagem imediatamente magnético e empático. O pequeno ator é incrivelmente hábil em passar para o expectador a admiração pelo irmão mais velho, Guddu; o encanto natural e inocente equivalente a uma criança de sua idade, independente das condições em que vive; e também o assombro e a opressão a que é submetido quando se vê longe de casa e inserido em ambientes estranhos, onde as pessoas o atropelam pelas ruas e falam um dialeto bem diferente do seu. A maneira como aprendemos a nos simpatizar por Saroo é ainda mais testada quando o filme mostra o processo de “treinamento” para crianças perdidas, funcionando como um flagrante processo de adestramento para que sejam “apropriados” para a adoção por casais abastados. 


A estratégia visual adotada por Davis e pelo cinematógrafo Greig Fraser se baseia na lógica de isolar o protagonista do ambiente à medida em que se criam conflitos, tanto na primeira como na segunda metade. No início da história, as ruas e moradias do povoado de Ganesh Talai exibem cores mais dessaturadas em clara oposição com elementos pontuais mais coloridos, por exemplo, o doce vermelho que Saroo cobiça numa feira irá remeter a outros na segunda parte, quando servirá de ligação emocional para o já adulto protagonista.

O que nos leva à segunda parte da narrativa, quando o competente Dev Patel agora interpreta Saroo aos 25 anos de idade e com uma vida privilegiada pelas ótimas condições de seus pais adotivos, interpretados por Nicole Kidman e David Wenham. Ainda que apresentando uma estratégia visual interessante, como mencionado anteriormente, o roteiro de Davies se torna mais imediatista e apressado do que deveria. Talvez pela já passada 1 hora de filme, a narrativa passa a depender exclusivamente da busca do jovem pela sua terra natal. Não que a própria premissa seja um problema, na verdade, é até óbvia, mas também se baseia numa brusca motivação por parte do protagonista. A segunda parte reserva um pequeno tempo para inserir, ao mesmo tempo, os problemas relacionados ao fato de Saroo se sentir inseguro com sua origem, a complicada relação com outro irmão adotivo que é pouco explorada e ainda usada para criar um conflito com a mãe adotiva, e a nova namorada Lucy, interpretada pela super talentosa Rooney Mara.



Esta segunda parte acaba se resumindo demais à busca através do Google Earth (e o filme não é muito sutil em propagandear o software) e de menos com o entendimento dos conflitos internos do personagem. Ainda por cima, o roteiro adota alguns elementos que já são bastantes cafonas e datados, por exemplo, personagens do passado aparecendo de relance enquanto os do presente reagem não como um devaneio, mas como se estivessem realmente vendo alguém presente fisicamente. Ou então podemos falar da trilha sonora que vai se tornando incessantemente presente e um pouco monocórdica, servindo para martelar o drama na cabeça do expectador o tempo todo.

Apesar dos problemas, Lion – Uma Jornada Para Casa ainda é um bom filme. Sua primeira parte se sobressai em qualidade narrativa do que a segunda, mas é muito provável que este seja um dos filmes com maior possibilidade de agradar o público dos que estão indicados ao Oscar. É uma típica história que usa uma grande jornada de volta para casa, com dois atores carismáticos interpretando um protagonista que desperta simpatia, e ainda insere o contexto de uma ferramenta tecnológica tão comum num drama que tende ao tipo de clímax reconfortante para a maioria das pessoas.




Título Original: Lion

Direção: Garth Davis

Elenco: Sunny Pawar, Dev Patel, Nicole Kidman, David Wenham, Rooney Mara, Priyanka Bose, Nawazuddin Siddiqui

Sinopse: Quando tinha apenas cinco anos, o indiano Saroo (Dev Patel) se perdeu do irmão numa estação de trem de Calcutá e enfretou grandes desafios para sobreviver sozinho até ser adotado por uma família australiana. Incapaz de superar o que aconteceu, aos 25 anos ele decide buscar uma forma de reencontrar sua família biológica.

Trailer:


Você, leitor, diga quais foram suas impressões deste lançamento indicado ao Oscar de Melhor Filme em 2017. Obrigado pela leitura!

João Rafael

Estudante de Engenharia Civil no UniCeub e de cursos de Cinema avulsos que forem aparecendo pela frente. Sempre interessado em discutir os as causas e consequências da Sétima Arte.

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