Crítica: Sete Minutos Depois da Meia-Noite (2016, de J. A. Bayona)




O cineasta espanhol J.A. Bayona tem apresentado uma carreira muito interessante, um pouco similar a do mexicano Guillermo del Toro. Ambos tem um estilo de narrativa peculiar: suas obras abordam fantasia com elementos góticos, drama melancólico, uso de bons efeitos especiais (porém utilizados de maneira controlada), personagens infantis cativantes e críticas sociais históricas ou íntimas. Se del Toro impressionou com um drama fantasmagórico destruidor (A Espinha do Diabo), Bayona fez o mesmo com O Orfanato: ambos sendo emocionantes e assustadores na mesma medida. Se del Toro fez algo a mais em superproduções, nos inventivos filmes do Hellboy e Círculo de Fogo, Bayona também conseguiu isso com doses de emoção em O Impossível. Se del Toro utilizou a inocência de uma criança e metáforas para chocar e encantar com o arrebatador O Labirinto do Fauno, Bayona consegue chegar perto aqui neste filme que falaremos agora. Sete Minutos Depois da Meia-Noite é baseado em um livro de mesmo nome e traz uma emocionante trama.



Conhecemos Conor, menino cuja mãe está muito doente em fase terminal. Ele não se dá bem com a avó, não tem contato com o pai e sofre bullying na escola. À noite, tem medo de uma velha árvore no pátio, o que resulta em pesadelos imaginativos. Porém, a árvore cria vida e apesar de ser um monstro atemorizante, acaba se criando uma amizade entre o menino e o estranho ser. Enquanto Conor fala de suas dificuldades para a criatura, o monstro narra histórias de fantasia nada convencionais ao garoto. E é aí que reside a mensagem central do longa, trazendo momentos marcantes e sendo de total importância para a força que o protagonista precisa ganhar.



Vale salientar que apesar das comparações com O Labirinto do Fauno, é uma produção mais leve e familiar. Em dados momentos ele se assemelha com o interessante Ponte para Terabítia, mesclando realidade e fantasia na mente de uma criança, em fase de transição e amadurecimento. O roteiro consegue passar muito bem as metáforas, com pequeninas dicas durante toda projeção. Há vários elementos sutis que demonstram o que realmente está acontecendo. A direção de Bayona é firme em alguns momentos, mas suave em outras. Sua câmera nunca poupa o público de uma cena triste, no rosto sofrido de personagens e nas dificuldades do protagonista. Mas nunca chega a ser algo que te deixa negativo. Há um cuidado em mostrar a realidade de maneira crua, para logo em seguida trazer um ensinamento, algo que serve como um "abraço", um afago.

O uso de efeitos especiais é bom, apenas o suficiente para criar o monstro de forma lúdica, mas isso ocorre de maneira controlada e cuidadosa. Nunca toma-se ar de grandiosidade, os efeitos especiais não ofuscam a trama, mas servem como complemento a mesma. A edição de som e a trilha sonora de Fernando Velásquez é extremamente feliz em ajudar a dar o tom certo na produção. E isto se dá tanto nos momentos de batidas nas cenas de tensão e mistério, como nos momentos mais harmoniosos em sequências de emoção. A paleta de cores e a fotografia são outros fatores interessantes na obra. Quando no cenário real, o filme apresenta cores frias (azul, cinza), para passar a sensação de drama e tristeza. Quando no cenário fantasioso, temos cores vivas como vermelho e laranja, para passar a sensação quente de esperança, de magia lúdica, de vida.

O elenco está de parabéns. O jovem Lewis MacDougall interpreta o problemático personagem central de maneira competente. Felicity Jones emociona como a mãe do menino e temos algumas cenas muito bonitas, numa grande entrega da moça (mesmo que pequena em tempo). Sigourney Weaver está apenas ok, mas não compromete em nada a harmonia do elenco. Mas o grande destaque vai para a voz de Liam Neeson, que entrega um monstro de camadas. Ele entona a voz de maneira correta, entregando momentos imponentes e outros com certa ternura. O ator fez um belo papel tanto na dublagem quanto na captura de movimentos, entregando um ser bastante crível e cativante, nunca perdendo sua magia ou mistério.

A infância é um momento único, onde não deveria se preocupar com problemas tão pesados. Mas em um mundo de constante mudanças, a verdade é que muitas crianças enfrentam realidades tristes. Sete Minutos Depois da Meia-Noite fala sobre isso, e sobre as mudanças e amadurecimentos que estas dificuldades acarretam. Diante do medo, da incerteza, da perda, a única saída pode ser o lúdico, o fantasioso, o que nos encanta ou assusta. Isto pode parecer bobo ou errado. Mas não se engane, é daí que muitas vezes tira-se a força de superar aquilo que mais tememos, aquilo que mais nos machuca. Mais do que recomendado, este belo filme carrega uma força por trás de toda sua simplicidade. Há uma grande metáfora, com uma bela mensagem. Bayona merece atenção. O diretor assumiu o cargo da superprodução Jurassic World 2 e torcemos para que se faça um bom trabalho. Enquanto o filme dos dinossauros não chega, fique com esta singela obra que fala de um garoto e uma árvore. Ela irá levar os mais sensíveis às lágrimas, ela irá lhe surpreender. Para encerrar, podemos traçar um paralelo do filme com o próprio cinema. Uma fantasia que nos dá força - seja para escapar, seja para lidar - com a dura realidade.





Título Original: A Monster Calls

Direção: J.A. Bayona

Elenco: Ben Moor, Felicity Jones, Lewis MacDougall, Liam Neeson, Sigourney Weaver.

Sinopse: Conor é um garoto de 13 anos de idade, com muitos problemas na vida. Seu pai é muito ausente, a mãe sofre um câncer em fase terminal, a avó é uma megera e ele é maltratado na escola pelos colegas. No entanto, todas as noites Conor tem o mesmo sonho, com uma gigantesca árvore que decide contar histórias para ele, em troca de escutar as histórias do garoto. Embora as conversas com a árvore tenham consequências negativas na vida real, elas ajudam Conor a escapar das dificuldades através do mundo da fantasia.

Trailer:






Liam Neeson na captura de movimentos.


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