Especial: Documentários do Oscar 2017


O documentário ainda é um gênero subestimado no cinema. Frequentemente ainda se referem a ele como um meio menor em relação às possibilidades narrativas das obras de ficção. É verdade que nessas últimas há uma maior gama de possibilidades de forma e estilo, mas as temáticas e as abordagens dos documentários os transformam numa poderosa ferramenta geradora de debate e empatia. Não há fonte mais verdadeira e capaz de servir de espelho para nós do que aquela que usa a própria realidade como forma de arte. Ainda por cima, são fontes de informação capazes de multiplicar nosso entendimento sobre as coisas e expandir nossa visão sobre o mundo. 


É impossível que qualquer ser humano dotado de um cérebro e um “coração” não se sinta movido por obras como Como Sobrevier a Uma Praga (David France, de 2012), que fala sobre a comovente luta da comunidade LGBT contra a epidemia da AIDS na década de 80, nos EUA; ou A Guerra Invisível (Kirby Dick, de 2012), sobre os inúmeros casos de mulheres estupradas por companheiros no exército americano e como as ocorrências são abafadas pelo governo. 

Os temas dos filmes não precisam ser naturalmente problemáticos ou serem dotados de inata importância social ou política. Veja o caso de À Procura de Sugar Man (Malik Bendjelloul, de 2012), que mostra a emocionante história do músico desconhecido Sixto Rodriguez e como ele se tornou um mito na África do Sul; ou A Um Passo do Estrelato (Morgan Neville, de 2013, disponível na Netflix), a história dos cantores de apoio e como eles foram fundamentais para o sucesso dos maiores nomes da história da música.

Abaixo listo ainda outros excelentes exemplares que, como os citados acima, foram indicados ao Oscar nos últimos 7 anos:

Lixo Extraordinário (João Jardim, Karen Harley, Lucy Walker, de 2010) – belo documentário brasileiro sobre a vida (e arte) dos catadores de lixo num dos maiores aterros sanitários do mundo, no RJ.

Trabalho Interno (Charles Ferguson, de 2010) – sobre a crise econômica de 2008 e seus inconvenientes segredos.

Paradise Lost 3 (Bruce Sinofsky, Joe Berlinger, de 2011) – conclusão da trilogia sobre um dos casos mais misteriosos de crime já documentados. Falo sobre ele e outros dessa temática (aqui). 

O Peso do Silêncio (Joshua Oppenheimer, de 2014, disponível na Netflix) – pesado e poético, acompanha familiares de vítimas de um genocídio na Indonésia confrontando frente a frente seus assassinos e torturadores, que vivem livremente nos dias de hoje.

O Sal da Terra (Juliano Ribeiro Salgado, Wim Wenders, de 2014, disponível na Netflix) – o belo trabalho e vida do fotógrafo mineiro Sebastião Salgado.

Cartel Land (Matthew Heineman, de 2015, disponível na Netflix) – impressionante e um choque de realidade em testemunhar o nascimento de grupos paramilitares para enfrentar os violentos carteis de drogas.

Virunga (Orlando von Einsiedel, de 2014, disponível na Netflix) – retrato da dedicação admirável de alguns guardas florestais para proteger os últimos exemplares dos gorilas da montanha, localizados no parque de Virunga, na República Democrática do Congo. Falo sobre ele e outros temas similares (aqui).

Citizenfour (Laura Poitras, de 2014) – as imagens da fatídica entrevista na qual Edward Snowden revela para os jornalistas a espionagem civil encabeçada pelos EUA. O início de um grande debate sobre segurança vs liberdade.

Amy (Asif Kapadia, de 2015, disponível na Netflix) – biografia da curta e marcante vida e carreira de Amy Winehouse.   

O fato é que todo ano os cinéfilos comparam os indicados em diversas categorias, principalmente a de melhor filme, com os anos anteriores. Há opiniões e opiniões acerca de um ano ser melhor que o outro, mas na categoria de documentário, digo com convicção que o nível tem se mantido sempre alto. Os exemplos acima tocam em temas de política, sociedade, meio ambiente, intolerância, história, música, estudos de personalidade, etc. São todas obras que abrem uma extensa janela sobre o mundo e tornam o poder da linguagem documental sempre fascinante.

Em 2017, os debates sobre representatividade encadeados na Academia nos últimos anos se refletiram nos indicados. Todos os cinco filmes têm como base a tolerância, tendo três deles o racismo especificamente como um dos temas principais. Vamos a eles:

A 13ª Emenda (Ava DuVernay, de 2016, disponível na Netflix).



Dirigido pela mesma cineasta de Selma, indicado ao Oscar em 2015, este documentário tem uma estrutura e uma narrativa burocrática, mas a importância e mensagem de seu tema o faz ser um dos mais relevantes deste ano. Usando estatísticas relativas ao enorme crescimento de negros na população carcerária dos EUA, DuVernay e seus especialistas fazem uma correlação assustadora desses dados com fatores segregacionistas relacionados à política e economia. É um estudo revelador e necessário para qualquer pessoa, cinéfilo ou não, e disputa o favoritismo com outro indicado sobre o qual falarei abaixo.

Nota: 8,5         


O.J: Made in America (Ezra Edelman, de 2016, disponível no site da ESPN para assinantes das operadoras que oferecem o canal). 


Certamente um dos melhores documentários da década e particularmente meu franco favorito para o prêmio. ”The Juice”, como ficou mundialmente conhecido O.J Simpson, foi uma das personalidades mais famosas da cultura pop americana. Considerado um dos maiores jogadores de futebol americano do país, se tornou uma gigantesca personalidade esportiva e televisiva durante sua ascensão nas décadas de 80 e 90. No dia 12 de junho de 1994, sua ex-mulher e um amigo foram encontrados mortos a facadas na frente da casa dela. A partir daí, começou um dos maiores circos midiáticos da história da imprensa americana. Todo o processo de julgamento foi extensamente coberto pelos jornais. O caso ganhou notoriedade mundial e envolveu grandes personalidades da justiça americana. Criou-se um palco onde grande parte da população ainda adorava a figura de Simpson e o defendia com afinco, mesmo com provas fortíssimas de sua culpa. O documentário da ESPN, divido em 5 partes equivalentes a um filme, é extremamente hábil em não só mostrar detalhadamente o crime e o processo de julgamento, mas em estudar minunciosamente a vida e a queda de uma grande personalidade americana (made in america), além de servir como uma aula de história ao investigar profundamente a questão do racismo em Los Angeles. A história de O.J ganhou também uma ficção premiada: a série American Crime Story, exibida em 2016.

Nota: 10     


Vida, Animada (Roger Ross Williams, de 2016, disponível na Netflix).

          
Comovente história de Owen Suskind, um garoto portador de autismo que passou anos sem se comunicar direito com outras pessoas. Certo dia, seus pais notaram que um dos raros momentos em que Owen interagia era vendo animações clássicas da Disney. Através de diálogos e canções, seus pais conseguiram que o filho fosse aos poucos sendo reinserido no convívio social. O filme é um processo comovente ao acompanhar a busca de um portador de autismo por um vida normal.

Nota: 8,0


Fogo no Mar (Gianfranco Rosi, de 2016). 


Vencedor do Urso de Ouro no festival de Berlim, o filme aborda a crise dos imigrantes na Europa na visão dos moradores da ilha de Lampedusa, na Itália. Com um caráter contemplativo, o filme foge do formato de documentário tradicional, quando, ao invés de propor um estudo mais jornalístico e histórico, prefere investir num olhar observador sobre os impactos humanos da crise nos moradores da região. Excessivamente lento e pretensioso, o filme acaba se prejudicando pela falta de ritmo, apesar da importância de seu tema.

Nota: 6,5   


Eu Não Sou Seu Negro (Raoul Peck, de 2016).


Narrado por Samuel L.Jackson, o filme é baseado nas anotações do escritor James Baldwin sobre um projeto inacabado que procuraria retratar sua convivência com Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King. É o tema do racismo tratado mais através das reflexões do autor do que por uma investigação cronológica tradicional. Inicialmente a narrativa parece sem força por causa da estrutura subjetiva da história, mas na medida em que ela avança, o projeto ganha notável força graças à inteligência e oratória de Baldwin, que oferece belas reflexões sobre o assunto sempre que necessitamos de um olhar mais apurado. O escritor se mostra uma personalidade extremamente carismática e sensata, sendo o responsável pelo magnetismo do filme.

Nota: 8,5


Não perca tempo em adicionar o documentário na sua lista anual de cinéfilo. Garanto que não se arrependerá. Comente o que achou das dicas! 

João Rafael

Estudante de Engenharia Civil no UniCeub e de cursos de Cinema avulsos que forem aparecendo pela frente. Sempre interessado em discutir os as causas e consequências da Sétima Arte.

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