Crítica: Sequestro em Cleveland (2015, de Alex Kalymnios)


Infelizmente, vivemos em um mundo imprevisível, no qual muitas vezes o perigo mora onde menos imaginamos.  "Lobo em pele de cordeiro" é a expressão mais apropriada para definir os vários casos de sequestradores que mantiveram suas vítimas confinadas em suas casas e continuaram suas vidas perante a sociedade como se nada estivesse acontecendo. Com uma história de confinamento assim como em O Quarto de Jack, e baseado em fatos reais como em 3096 Dias, o longa para a televisão Sequestro em Cleveland mostra acontecimentos impressionantes os quais somente uma mente perigosa é capaz de planejar e executar. 

Dirigida por Alex Kalymnios (Eastenders, Hollyoaks, Scott & Bailey), a adaptação para a televisão do caso real ocorrido em Cleveland (USA) é focada em Michelle Knight, a primeira vítima de Ariel Castro, que chegou a manter em sua casa duas outras adolescentes também sequestradas por ele nos anos seguintes: Amanda Berry (17 anos) e Gina DeJesus (14 anos). Ao aceitar uma carona de Ariel Castro, pai de sua colega de classe, Michelle, aos 21 anos, mudaria para sempre o destino de sua vida. Confinada em um regime brutal de torturas, estupros, privações e chantagens físicas e psicológicas, Michelle conseguiu sobreviver por 11 anos nas mãos doentias de seu sequestrador. Por ser uma produção feita para a televisão, as cenas de violência do filme não são tão explícitas quanto poderiam ser ao se tratar de uma megaprodução, mas são o suficiente para deixar quem assiste desconfortável, ainda mais por se tratar de um caso real. 

O fato da trama ser focada na vida de Michelle mais do que nas outras duas adolescentes que também sofreram o mesmo tipo de abuso é interessante uma vez que, no longa, percebe-se que haviam mobilizações e uma comoção geral da sociedade somente com os desaparecimentos de Amanda e Gina. Já Michelle, que vinha de uma família totalmente desestruturada e, por isso, perdeu a guarda de seu filho Joey, não foi reportada como desaparecida pela polícia - ao invés, foi concluído sem prova alguma que a jovem teria desaparecido por conta própria por não querer assumir as pressões de sua vida. A impressão que passa é que Sequestro em Cleveland é como se fosse uma homenagem - ou uma espécie de recompensa - a Michelle por seu caso não ter ganhado antes a atenção que deveria. 


Outro ponto interessante da produção é a atuação de Raymond Cruz (Ariel Castro), que interpretou o papel da maneira mais correta possível. Afirmo isso pois, num caso como esse, é necessário reforçar que a pessoa por trás do sequestrador se porta normalmente nas situações cotidianas - a mudança de comportamento somente ao chegar em casa é uma característica comum desse tipo de criminoso, sendo assim, é importante que o ator não adote um porte sombrio e sádico durante todo o filme. Raymond retratou Ariel como ele era: um ser problemático, manipulador, sádico... e comum, aos olhos de quem não o conhecia em seu íntimo. Para ilustrar um pouco mais o quão perturbada era a mente de Castro, ele era amigo dos pais de uma de suas vítimas, Georgina de Jesus, e chegou a ter uma filha, a pequena Jocelyn, com Amanda Berry. Inclusive, uma das cenas mais agonizantes do longa é o parto de Amanda Berry, no qual Castro aponta a todo momento uma arma na cabeça de Michelle e promete atirar caso algo de errado ocorra durante o nascimento. 


Apesar de cumprir seu papel de imortalizar um caso que jamais deveria ser esquecido, Sequestro em Cleveland poderia até ser digno de uma produção de maior orçamento. Arrisco dizer que com certeza seria um sucesso de bilheteria. No entanto, o fato de se tratar de uma produção menor não o desqualifica, uma vez que o filme possui certa fidelidade tendo como base todo o material público sobre o caso. Além disso, sob um ponto de vista diferente, a produção de menor orçamento até pode reforçar a sensação de que aquilo tudo retratado pelo filme realmente aconteceu, não se tratando apenas de uma invenção cinematográfica.  O sentimento que fica ao se terminar de assistir é o de agonia. É assustador pensar que o inimigo realmente pode morar ao lado, ter uma aparência comum e comportamento dentro da normalidade, e que bastante coisa pode estar acontecendo por trás das paredes de uma casa. Coisas que o mundo talvez jamais chegará a saber. 


Título original: Cleveland Abduction

Direção: Alex Kalymnios

Elenco: Taryn Manning, Raymond Cruz, Katie Sarife, Samantha Droke

Sinopse: Michelle Knight (Taryn Manning) é a primeira vítima do perturbador e doentio Ariel Castro (Raymond Cruz). Sequestrada, torturada e mantida em cativeiro, Michelle fica presa durante onze anos na casa Castro e, eventualmente, se torna amiga de outras duas mulheres também sequestradas e violentadas pelo criminoso. 

Trailer: 



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Mariana Portela

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