Crítica: Desejo e Reparação (2007, de Joe Wright)


Desejo e Reparação, realização cinematográfica de Joe Wright (Orgulho e Preconceito), e adaptação da obra Reparação, de Ian McEwan, traz em sua concepção o tema culpa, o conflito de sentimentos e a razão, através da história contada a partir de um romance em que um erro, cometido pelos caprichos de Brioni (Saoirse Ronan), uma criança criada numa sociedade na qual ela não tinha espaço, tem graves consequências na vida do casal representado por sua irmã mais velha, Cecilia (Keira Knightley), e Robbie (James McAvoy), que é filho da governanta da casa.


Quando criança, sendo a filha caçula de uma típica família de classe alta numa Grã-Bretanha conservadora no que se refere aos costumes, Brioni cresceu mimada e sem a presença do diálogo na família. Percebemos no filme que mal lhe dão atenção quando ela escreve sua primeira peça, a não ser a mãe com os seus mimos; e quando ela começa a presenciar determinados fatos que para ela não têm sequer explicação, cria com sua imaginação fértil as próprias explicações.


É assim que se dá a construção do tema principal do filme. Brioni intercepta uma carta de Robbie para sua irmã e se espanta com palavras obscenas no papel. Logo depois, presencia um ato de sexo na biblioteca entre os dois. Ao notarem a presença da menina, eles saem sem sequer se dar ao trabalho de ter qualquer conversa com ela. Essa falta de diálogo, evidenciada com maior destaque nessa cena, é um dos principais fatores que desencadeiam a atitude e o maior arrependimento da vida de Brioni. Para completar a composição do drama, outra criança, que se encontrava na casa, é violentada, e Brioni, confusa, dá vazão à sua imaginação e conta para todos o que viu – ou pensa que viu. O resultado é o afastamento precoce do casal.


Após este incidente, há um salto temporal e tem palco a Segunda Guerra Mundial, e Brioni (Romola Garai) agora é uma enfermeira adulta que trabalha cuidando dos soldados feridos na frente de batalha, um futuro que não era o planejado por ela quando criança, o que pode ser interpretado como uma forma dela se punir pelo que fez. Tomada pelo arrependimento, procura sua irmã e se dispõe a fazer tudo para corrigir o seu erro. Quando, mais tarde, já na velhice, percebe que não pôde consertar o erro cometido na infância, usa sua habilidade como escritora para aquietar de alguma forma o seu íntimo, o evidenciado é que, na verdade, ela nunca pôde conviver com aquele sentimento, no momento em que percebera as conseqüências do que tinha feito.


Desejo e Reparação está inserido no movimento cinematográfico denominado Intimismo, que é outra forma de se representar o real, no que se refere, principalmente, à idealização do real. Quando Brioni escreve o livro, dando a ele um final diferente da história em que ele foi baseado, além de ser sua última tentativa de se livrar da culpa, era também sua forma de idealizar o que ela gostaria que tivesse acontecido; houve um recorte do real, a partir de uma interpretação do que ele poderia ter sido. Neste ínterim, o Intimismo pode ser comparado ao Romantismo, mas, como escreve Maurício Rittner, nem sempre Intimismo representa um final feliz, como ocorre com os filmes do Romantismo.



Joe Wright transpôs para a tela um filme intimista em pleno século XXI (quando os filmes intimistas tiveram seu apogeu nos anos de 1930 a 1950), com toda a beleza de sua mise-en-scène, aliado a grandes atuações da ainda jovem Saoirse Ronan, Keira Knightley e James McAvoy. O roteiro tem uma ótima construção de personagens, não deixando o espectador tomar o lado desta ou daquela personagem levianamente. Além disso, o figurino e toda a reconstrução de época, juntamente com a fotografia, transformam o filme num deleite visual.


Título Original: Atonement

Direção: Joe Wright

Elenco: James McAvoy, Keira Knightley, Romola Garai, Saoirse Ronan, Vanessa Redgrave, Ailidh Mackay, Alex Noodle, Alfie Allen, Alice Orr-Ewing.

Sinopse: Aos 13 anos, a jovem Briony já demonstra ter um grande talento como escritora, principalmente por sua intensa criatividade. Um dia, ela pensa ter visto sua irmã mais velha, Cecília, sendo assediada por Robbie, o filho da governanta de sua casa. Ela fica em silêncio até o dia em que uma prima é estuprada. Levada por sua imaginação fértil, Briony tem certeza de que foi o jovem Robbie e o acusa. O rapaz é preso, mas Cecília está apaixonada por Robbie e é a única que não acredita na acusação de Briony.

Trailer:

E você, já viu Desejo e Reparação? O que achou do filme? Deixe seu comentário! :)

Michele Figueiredo

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