Crítica: Grave (2017, de Julia Ducournau)




Grave ou Raw (2017) é, definitivamente, um filme único. Cheio de metáforas e sutilezas técnicas, envolve tanto aqueles que estão à procura de cenas fortes, impactantes e sangrentas, características de filmes de horror, quanto os que apreciam filmografias mais requintadas, com seus significados tácitos e abertas a diferentes interpretações. Raw é o longa de estreia da francesa Julia Ducournau, cujo êxito indica que devemos ficar atentos a seus próximos trabalhos. 


A obra conta a história de Justine, uma vegetariana convicta que passa para uma faculdade de veterinária, onde enfrenta o desafio imposto por seus veteranos durante o trote de comer rim de coelho. A partir desse momento, um verdadeiro divisor de águas na vida da protagonista, uma série de eventos começa a acontecer, e Justine, a garota quase perfeita e super estudiosa, se embrenha cada vez mais por uma estrada tortuosa e sombria, em que figuram o canibalismo e a decadência.



O gosto de Justine por carne aparece intimamente ligado à sexualidade. O prazer de saborear a carne, ressaltado por uma sonoplastia focada nos sonidos produzidos no encontro da boca com as refeições peculiares da estudante, se relaciona com a passagem da infância para a juventude e com o processo de amadurecimento e de descoberta característicos dessa fase. Justine, até então uma menina sem vaidades, começa a se preocupar com sua aparência – ou, ao menos, é levada a fazê-lo –, e a se interessar pelo sexo oposto logo após concluir a transição metafórica de seu corpo representada pela alergia alimentar que causou intensa coceira em sua pele e a fez descascar: a lagarta se transforma em borboleta. Seu gozo é o sangue. A carne pura, crua e simples passa a atraí-la tanto quanto os corpos masculinos fantasiados de humanidade.

Sim, a humanidade, em Raw, é praticamente uma fantasia, e não por acaso: a relação entre canibalismo e sexualidade traz à tona o lado mais primitivo, selvagem e instintivo do ser humano. Na tela, somos supreendidos por corpos amontoados, que se consomem e se alimentam uns aos outros no afã do desejo e, até mesmo, da promiscuidade. A satisfação e o prazer são procurados e encontrados na materialidade dos corpos alheios e na superficialidade da carne. Nada de relações em um mundo que busca apenas saciar os próprios anseios. Nesse sentido, nós, seres humanos, não aparecemos como distantes dos animais, mas sim extremamente próximos. 






A direção de fotografia faz um ótimo trabalho ao destacar o vermelho e utilizar tons vibrantes e neon, além de optar, diversas vezes, por planos abertos nos quais as personagens quase se perdem. Dessa maneira, o poderio e a atração exercidos pelos corpos humanos são ressalvados por sua pequenez, fragilidade e suscetibilidade à natureza, brindando-nos com um belíssimo exercício estético.

Durante o filme, somos surpreendidos por cenas profundamente perturbadoras, e a surpresa reside no fato de que, em uma obra sobre canibalismo, as situações mais incômodas não envolvem antropofagia. É o que podemos notar, por exemplo, quando a irmã de Justine, Alex, tenta retirar a camada de cera da virilha da menina e não consegue; ou quando aparece um velhinho, personagem digno de um filme lynchiano, rindo com sua dentadura deslocada em um jogo esplêndido de luzes; ou quando vemos uma mulher lambendo o globo ocular de seu parceiro durante uma festa. 




A direção de Ducournau é excelente, sendo capaz de tirar o máximo de seus atores. Garance Marillier (Justine) e Ella Rumpf (Alex) se entregam totalmente a seus papéis, sem receio de exprimir seu lado mais primitivo e sombrio nas telas. Além disso, todos os elementos da obra estão muito bem orquestrados, e uma trilha sonora que vai crescendo juntamente ao desenrolar da trama conjuga as partes, tornando a unidade ainda mais coesa.




Título original: Raw

Direção: Julia Ducournau

Elenco: Garance Marillier, Ella Rumpf, Rabah Nait Oufella, Laurent Lucas

Sinopse: Na família de Justine (Garance Marillier), todos os integrantes trabalham com a área veterinária e são vegetarianos. No entanto, assim que Justine pisa na escola de veterinária, ela acaba comendo carne. As consequências deste ano logo serão sentidas e chocarão toda a família.





Trailer




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Bianca Pinheiro

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