Crítica: Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014, de Daniel Ribeiro)


Em 2010, a divulgação no Youtube do curta-metragem Eu não Quero Voltar Sozinho, do jovem roteirista e diretor Daniel Ribeiro, que até então só tinha realizado o curta Café Com Leite (2007), encantou e chamou a atenção de muita gente pela delicadeza e sensibilidade do roteiro, que trazia a história de um menino cego que se apaixona pelo novo colega de escola. O filme fazia parte do Cine Educação, programa que exibe filmes nas escolas em parceria com a Mostra Latino-Americana de Cinema e Direitos Humanos. Mais de 60 prêmios (incluindo os nacionais e internacionais) e 4 anos depois, Daniel fez sua estreia na direção de longas com Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, uma narrativa diferente baseada na história apresentada pela curta.


Com o mesmo elenco principal, composto pelos jovens atores Ghilherme Lobo, Tess Amorim e Fabio Audi, o novo título reflete tanto as mudanças ocorridas no filme quanto nos conflitos de Leonardo, o protagonista da história. A trama principal é a mesma, contudo, no curta as coisas funcionavam tão perfeitamente que pecava pelo seu excesso de irrealidade. Seria como as coisas deveriam ser, num mundo ideal, enquanto que no longa o diretor teve tempo para corrigir isso, aplicando pequenas, porém necessárias, doses de realidade, como: bullying sofrido por Leonardo na escola; a sufocada relação familiar do protagonista, sua busca por independência e liberdade enquanto um adolescente cego; o florescimento do primeiro amor; a descoberta (e aceitação) da sexualidade e as complicações da amizade.


Enquanto no curta-metragem a deficiência visual de Leonardo era mais um elemento para enriquecer uma história de amor, o longa apresenta situações desafiantes que o protagonista enfrenta diariamente na escola, ambiente em que ele é um alvo fácil para os valentões, que fazem piadas com o barulho da máquina especial para a escrita em Braille, utilizada por Leonardo na sala de aula, além de tentar fazê-lo tropeçar pela escola, entre outras “brincadeiras” de mau gosto. Além disso, quando Gabriel chega à escola e se torna amigo de Leonardo, ele dá vários “fora”, pois, desacostumado a lidar com pessoas cegas, o garoto várias vezes solta frases como “a gente podia ir ao cinema”, “a gente podia ver o eclipse da lua”, entre outras; apesar de Leonardo parecer não se importar, planos close-up revelam o contrário, através de sua expressão tristemente resignada.


A inserção do ambiente familiar que cerca Leonardo também foi um acerto do filme. Além do ambiente estressante da escola, onde só encontra algum consolo na amizade da fiel Giovana e, mais tarde, na de Gabriel, em casa Leonardo também tem que lutar diariamente por independência e liberdade (tema que melhor reflete a alteração sofrida no título da obra), pois os pais são altamente superprotetores em relação ao filho. Se esse tema já é uma constante na vida de qualquer adolescente, para um que ainda por cima é deficiente visual a complicação é ainda maior, e praticamente toda cena em que a família está junta é um conflito diferente: quando Leonardo chega um pouco mais tarde em casa, por exemplo, ou quando ele pede para ir no acompanhamento da escola; mas a gota d’água para os pais é quando ele começa a sonhar com um intercâmbio, como se isto significasse a solução para todos os seus problemas.


Mas o mais importante é que nenhuma dessas alterações no roteiro tirou a essência do curta: toda a leveza, delicadeza e sensibilidade da história original de Daniel Ribeiro estão preservadas em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, e isso pode ser percebido quando o filme aborda o florescimento do primeiro amor e a descoberta e aceitação da sexualidade. Tudo é muito natural: a confusão que ambos, Leonardo e Gabriel, sentem com relação aos seus sentimentos um pelo outro; a dificuldade em se abrir, por parte de Leonardo - especialmente quando Giovana, enciumada, se afasta dele - e a negação, por parte de Gabriel; mas no fim, com um empurrãozinho da própria Giovana, eles assumem seus sentimentos, numa recriação da cena final do curta.


Os diálogos são pouco literários, mas isso não é necessariamente algo ruim, pois dessa forma o texto aproxima mais o espectador da obra, especialmente o público mais jovem, que conversa de uma maneira totalmente informal e pouco usa frases feitas ou com maior profundidade linguística. As atuações poderiam ter sido melhores -  Ghilherme Lobo faz um bom trabalho na pele de Leonardo, e Tess Amorim, como a fiel Giovana, não entrega nada além do esperado; já Fábio Audi, como Gabriel, é o mais fraco - entretanto, este aspecto não chega a atrapalhar o bom desenvolvimento da obra. A química entre o trio principal funciona. A fotografia tem tons frios predominantes e a trilha sonora - incluindo Belle & Sebastian, Cícero e também música clássica - se encaixa perfeitamente em todos os momentos do filme.



A maturação do filme refletiu principalmente nas premiações: foram mais de 20 prêmios de festivais como o de Berlim, Guadalajara e o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho também foi um dos escolhidos pelo Ministério da Cultura para representar o Brasil na competição do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro da edição de 2015. Porém, infelizmente a obra não conseguiu ficar entre os finalistas ao prêmio, mas é sem dúvidas mais uma demonstração do quanto o cinema brasileiro pode oferecer.



Título Original: Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

Direção: Daniel Ribeiro

Elenco: Fabio Audi, Ghilherme Lobo, Tess Amorim, Bruna Maia, Eucir de Souza, Guga Auricchio, Isabela Guasco, Júlio Machado, Lúcia Romano, Matheus Abreu.

Sinopse: Leonardo é um adolescente cego que, como qualquer adolescente, está em busca de seu lugar. Desejando ser mais independente, precisa lidar com suas limitações e a superproteção de sua mãe. Para decepção de sua inseparável melhor amiga, Giovana, ele planeja libertar-se de seu cotidiano fazendo uma viagem de intercâmbio. Porém a chegada de Gabriel, um novo aluno na escola, desperta sentimentos até então desconhecidos em Leonardo, fazendo-o redescobrir sua maneira de ver o mundo.


Trailer:


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Michele Figueiredo

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