Crítica: O Círculo (2017, de James Ponsoldt)



No ano de 2013, Edward Snowden, um analista de sistemas e ex-funcionário da Agência Nacional de Segurança dos EUA, deu uma boa sacudida nos alicerces que asseguravam a confiança dos americanos na supermáquina democrática de seu país. Claro, depois que foram reveladas ao mundo informações de como o governo se aproveita de um poderoso sistema de vigilância para espionar qualquer nação (ou pessoa), não parecia nem um pouco absurdo (até um pouco óbvio) reconhecer que a nação mais poderosa do mundo não iria pedir permissão para “checar o perfil” de seus rivais. Se você conferiu Snowden (Oliver Stone, de 2016), o documentário Citizenfour (Laura Poitras, de 2014), ou viu a maioria dos episódios da aclamada série britânica Black Mirror, notou que a discussão em torno de temas como liberdade, segurança, privacidade e até integridade física e moral de nações e indivíduos, ainda parece muito promissora, principalmente se considerarmos os avanços exponenciais da tecnologia – o que certamente ainda vai garantir muito material para que o cinema e a arte em geral produzam obras similares às citadas. Agora com O Círculo, mais uma vez a relação entre indivíduos, redes sociais, corporações e governo se torna centro de uma obra que procura explorar ideias que estão em contato direto com a atualidade. Infelizmente, ao contrário dos exemplos citados anteriormente, este jamais consegue desenvolver muito bem sua premissa, o que mostra que não basta uma boa ideia para resultar numa boa narrativa, principalmente se ela depende de um roteiro que vai rumo ao desastroso. 


Na trama, Mae (Emma Watson) é uma funcionária de telemarketing que sonha conseguir uma oportunidade melhor quando recebe uma proposta para trabalhar no Círculo, uma empresa multifacetada de tecnologia de ponta na área de conectividade, vigilância e redes sociais. Tendo que deixar a convivência com sua família (Glenne Headley e Bill Paxton, ambos falecidos esse ano), Mae passa a trabalhar na empresa e sente que seu potencial finalmente pode ser explorado com o máximo de sua capacidade, mesmo começando a questionar as reais intenções de seu chefe e fundador Eamon Bailey (Tom Hanks). 


Se você já pesquisou sobre o ambiente de trabalho do Google, deve ter visto uma imagem que parece ser o sonho de qualquer um que queira seguir carreira no ramo privado: pessoas felizes, sorridentes, trabalhando em horários extremamente flexíveis e em locais que mais parecem clubes de recreação do que um escritório. A idealização visual do Círculo é basicamente uma representação desses ambientes e sua tecnologia se baseia numa mistura de aplicativos de conectividade num só software que promete ser uma espécie de centro de convivência virtual. Ali, é possível ter uma rede social, transmitir informações em áudio e vídeo em tempo real, juntar aplicativos médicos, sociais e científicos; basicamente, um sistema que conecta e submete todos os aspectos da vida social num só local.

Dirigido por James Ponsoldt (do ótimo e subestimado O Maravilhoso Agora), o longa até que consegue dar um certo dinamismo aos seus 90 minutos de duração. Se valendo de recursos já conhecidos de filmes com temática semelhante, como conversas virtuais representadas na tela e sequências de montagem que usam rimas gráficas para dar uma unidade narrativa perceptível, o filme atinge certa eficácia em fazer com que o expectador acredite que exista um trabalho de verdade ali, mesmo que jamais saibamos direito qual a função de Mae na empresa (o filme até brinca com a semelhança do antigo trabalho da protagonista no telemarketing). O Círculo parece um lugar imponente e a equipe do design de produção merece crédito por transformá-lo num ambiente que representa um futuro próximo sem que seja preciso recorrer a exageros que fariam a empresa destoar muito da realidade, fazendo com que a narrativa ficasse visualmente maniqueísta.


Pena que essa característica não pode ser igualmente evitada em relação às ideias que o longa pretende discutir. Partindo da premissa de que as tecnologias de Eamon Bailey parecem ter uma capacidade inconcebível de processamento, somos confrontados com um futuro (não muito distante) que se revela em constante vigilância à medida que mais usuários são seduzidos pela vida virtual. Apresentando novas tecnologias, que incluem uma super câmera do tamanho de uma bola de gude e um sistema que permite aos usuários identificar e localizar qualquer pessoa no mundo em questão de minutos, o fundador do Círculo, vivido como uma presença VIP de Tom Hanks, se apresenta como o novo revolucionário da tecnologia mundial. Porém, Bailey é um personagem que aparece pouco e jamais ganha força o bastante para representar um polo de discussão frente a tantas possibilidades – quando isso acontece, é rapidamente através de diálogos expositivos. Nunca há o bastante para que ele possa, ao menos, servir com um equilíbrio para a bagunça que acaba transparecendo com os outros personagens.

Aliás, os problemas decorrentes da forma desajeitada como o roteiro – escrito pelo diretor e com contribuição de Dave Eggers (escritor do livro do qual o filme foi adaptado) – decide desenvolver seus personagens acabam prejudicando bastante a coerência da narrativa. Ignorando uma regra básica do roteiro cinematográfico, que é a de não fazer com que seus personagens mudem drasticamente de acordo com a necessidade imediata da trama, o texto acredita que basta flutuar a personalidade de Mae a bel prazer para que acreditemos nas suas motivações. Sem jamais se preocupar com a organicidade, Ponsoldt e Eggers nos introduzem a uma mulher que é inteligente, espirituosa e principalmente, apresenta um senso ético que a faz questionar desde o começo as implicações da tecnologia; num momento seguinte, de maneira completamente inverossímil e através de um acontecimento bastante artificial, ela passa a abraçar todas as ideias de Bailey e, inclusive, passa ser uma das principais fontes de ideias junto aos cargos mais altos da empresa (como isso aconteceu tão rápido?). Ainda, suas ideias começam a flertar com um nível megalomaníaco completamente em dissonância com a maneira como sua personalidade nos foi apresentada no 1º ato (destaque para a cena onde ela passa a apoiar uma obrigatoriedade do vínculo entre o voto e a participação do cidadão nas redes sócias do Círculo).


Mas os problemas também afetam outros personagens e até a lógica simples do enredo. Em certos momentos específicos, somos apresentados a Ty Kalden (John Boyega), um dos engenheiros que ajudaram a desenvolver a tecnologia. O roteiro, com a clara intenção de dar uma aura de mistério ao personagem, faz com que ele apareça pontualmente como um recurso de criação de dúvida na protagonista. Jamais sabemos algo mais dele e o pior: seus encontros “secretos” com Mae nos levam a questionar seriamente a capacidade de vigilância de uma empresa detentora de ultra tecnologia em... vigilância. Como é possível que ninguém atribua, no mínimo, suspeita quanto às intenções do sujeito, que, inclusive, já era alvo de desconfiança do próprio Eamon Bailey? Isso que ainda tende a piorar enquanto nos aproximamos do desfecho.

A conclusão da história (sem spoilers, claro) ainda se conecta com uma subtrama que se revela a que pior foi desenvolvida: um flerte com Mercer, um amigo de infância que serviria como uma espécie de resgate para o mundo real da protagonista. Se Ellar Coltrane soube trabalhar bem com o naturalismo no excelente Boyhood (Richard Linklater, de 2014), aqui sua tentativa amadora de imprimir um tom dramático vai por água a abaixo, ainda mais considerando que o roteiro lhe entrega os piores diálogos do filme. Tudo ainda piora pelo fato dessa subtrama estar relacionada a momentos constrangedores que contribuem para a derrubada da nossa suspensão de descrença e para mais mudanças convenientes de personalidade.



O Círculo é um filme sem foco, com um roteiro ruim e que mal consegue sair da superfície ao propor discutir temas relevantes muito melhores apresentados em obras recentes. Não adianta: cinema é narrativa. Não importa sobre o que é um filme, e sim como ele conta sua história. De nada vale uma boa premissa se sua jornada jamais é desenvolvida ou satisfatória. Se realmente passássemos a considerar que Eamon Bailey fosse um personagem aceitável na vida real, a maneira como sua empresa nos foi mostrada faria com que o próximo Edward Snowden fosse completamente desnecessário. 

Bastaria abrir os olhos de vez em quando. 


Título Original: The Circle

Direção: James Ponsoldt

Elenco: Emma Watson, Tom hanks, John Boyega, Karen Gillan, Ellar Coltrane, Patton Oswalt, Glenne Headly, Bill Paxton

Sinopse: Mae (Emma Watson) é uma universitária cujo sonho é trabalhar na maior empresa de tecnologia do mundo, O Círculo. A organização foi fundada por Eamon Bailey (Tom Hanks) e o seu principal produto é o SeeChange, uma pequena câmera que permite aos usuários compartilharem detalhes de suas vidas com o mundo. Mae vê sua vida mudar completamente quando é contratada pela empresa e sua função passa a ser documentar sua vida em tempo integral. O que ela não imaginava, no entanto, é que toda essa exposição teria um preço, não só para ela, mas também para todos ao seu redor.

Trailer


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João Rafael

Estudante de Engenharia Civil no UniCeub e de cursos de Cinema avulsos que forem aparecendo pela frente. Sempre interessado em discutir os as causas e consequências da Sétima Arte.

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