Critica: De Canção em Canção (2017, Terrence Malick)




Austin, a capital do Estado do Texas, e seus festivais musicais são o ambiente para o nono longa-metragem do premiado diretor americano Terrence Mallick. Vencedor de melhor direção no Festival de Cannes por Cinzas no Paraíso (1978), ganhador do Urso de Ouro de Melhor Filme em Berlim por Além da Linha Vermelha (1998) e da Palma de Ouro novamente em Cannes por A Árvore da Vida (2011). Agora, apresenta ao público sua temática filosófica em meio a bela fotografia e locuções confessionais através desse misto de autobiografia e ficção.




Inspirado numa citação do romance As Ondas da autora americana Virginia Wolf: Perguntei-me como iria continuar sem “eu”, sem peso e sem visão, através de um mundo sem peso e sem ilusões?, a capital mundial da música ao vivo de todos os estilos é palco do dilema moderno sobre a mudança constante de identidade e de relacionamentos. A aspirante a compositora Faye (Rooney Mara) inicia um namoro sem futuro com BV (Ryan Gosling), um músico em ascensão no topo das paradas e com conflito interno lúcido sobre si e a modernidade.





Também precisa lidar com seu chefe bipolar e amante, Cook (Michael Fassbender), um produtor musical bem sucedido, amante dos prazeres e empresário de BV, embora preza a amizade com seu agenciado e vê no relacionamento dele com sua recepcionista algo profundo. Para completar o quadrado amoroso, aparece a garçonete Rhonda (Natalie Portman) como a namorada de Cook.


Além dos quatro protagonistas, tem Cate Blanchet como a amante de BV e Berénice Marlohe como a amante de Rhonda. O restante do elenco é constituído desde bandas de garagem até as mundialmente famosas Red Hot Chilli Peppers, The Black Lips, a cantora indie sueca Lykkie Li e a madrinha do Punk Patti Smith, que recentemente recebeu o Prêmio Nobel de Literatura no lugar de Bob Dylan. O restante faz parte da eclética trilha sonora ao misturar todos os gêneros. Seja para o público contemplar as imagens do filme, seja para demonstrar o estado de espírito dos quatro protagonistas.



Aparentemente é um documentário ficcional, onde a câmera registra e entrevista os personagens como são sem estar estática. Semelhante as filmagens caseiras e pessoais com a visão de 180° de uma lente grande-angular. A captura de imagens aconteceu durante a produção de Cavaleiro de Copas (2015), ao longo de dois anos, durante 40 dias esporádicos. A quarta parede é destruída e a alma de todos é revelada. Os pais de cada personagem também dão depoimento em off quando os filhos lhe pedem aconselhamento. Para realizar o filme, houve a participação de sua equipe de longa data. 

A beleza da fotografia não é comprometida e sob a direção de Emmanuel “Chivo” Lubezki (Birdman, 2014), a captura de imagens apresenta fluidez entre as sequencias, realismo de paisagens naturais e urbanas e onde poderia ter péssimo gosto e emoções cruas, há um deslumbre e beleza. O diretor de arte Jack Fisk (Cavaleiro de Copas, 2015) permite que o simbolismo seja bem explicito sobre o tema trabalhado, como a corrente do rio e o retrato de pele descamada de cobra, para representar a mudança junto com a troca de roupa, sem um padrão de cores ou estilo, para mostrar assim a montanha-russa emocional dos personagens. Essa mudança de roupa/emoção é resultado do bom trabalho da figurinista Jacqueline West (A Árvore da Vida2015).


A montagem ficou a cargo do trio em seu segundo trabalho com o diretor após a Árvore da Vida onde há desordem cronológica da narrativa criando assim uma estrutura própria que envolve amor e separação em meio a conflitos externos e internos sabendo que Malick não tinha roteiro prévio. Causando assim ausência de clímax e ponto de virada deixando ao público a opção de contemplar o amor e a traição em meio a experimentação audiovisual como sua estética marcante. Embora o demo reel inclua a participação de mais atores e músicos, estes foram cortados na edição final, isso porque o primeiro corte tinha 8 horas de duração.




Aqui não há louvor ou injúria ao amor e suas traições, apenas a vida sendo registrada e feita de momentos. O impacto gerado pelos sentidos apreendidos da obra cinematográfica depende do próprio espectador. Um filme para ser visto e ouvido sem a busca de uma lógica ou padrão característicos de Hollywood. Aproveite a música central, Rollin’ and Thumblin’, cantada por Bob Dylan e sua outra versão em blues pelo guitarrista Elmore Jones.






TÍTULO ORIGINAL: Song To Song

DIREÇÃO: Terrence Malick

ELENCO: Michael Fassbender, Ryan Gosling , Rooney Mara, Natalie Portman, Cate Blanchett, Holly Hunter, Val Kilmer, Bérénice Marlohe, Tom Sturridge, Iggy Pop, Patti Smith, Anthony Kiedis e Lykke Li.

SINOPSE: Nesta história de amor moderna, ambientada na cena musical de Austin, Texas, dois casais interligados - a compositora Faye (Rooney Mara) e o músico BV (Ryan Gosling), o magnata da música Cook (Michael Fassbender) e uma garçonete que ele ilude (Natalie Portman) - buscam o sucesso num cenário de rock'n'roll, sedução e traição.

Trailer:



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Paulo Brandao

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