Crítica: Ervas Daninhas (2009, de Alain Resnais)


Em 2009, então com 87 anos de idade, o diretor francês Alain Resnais se reinventou mais uma vez com o filme Ervas Daninhas, um dos últimos de sua carreira. “O cineasta do tempo e da memória”, como era conhecido, fez em Ervas Daninhas um trabalho diferenciado daqueles de outrora, como Hiroshima, Meu Amor (1959) ou mesmo o clássico O Ano Passado em Marienbad (1961).

Ervas Daninhas é uma comédia francesa que une uma história banal a situações imprevisíveis, através da análise sutil e cômica da imaginação (e do imaginário) das personagens, tudo no melhor estilo de Resnais. A partir de uma situação corriqueira a qualquer cidadão no mundo contemporâneo, como o roubo de uma carteira numa movimentada rua de Paris, a história caminha para um rumo tortuoso e incerto, repleto de sacadas sarcásticas e uma surpresa a cada virada de esquina.



Georges Palet, à primeira vista um homem de meia-idade comum, ao chegar ao estacionamento de um shopping encontra a carteira roubada. Vê duas garotas que se aproximam e reprime, mentalmente, o comportamento de uma delas, por usar uma calça que transparece a roupa íntima. Isso nos dá uma impressão duvidosa imediata acerca de Georges, mas deixamos essas dúvidas momentaneamente de lado para acompanhar o drama interno da personagem que, após averiguar a carteira e constatar que pertence a uma mulher chamada Marguerite, começa a imaginar diversas situações em que se encontra com ela – inicialmente para devolver-lhe a carteira, mas inexplicavelmente apenas ter-lhe visto a foto despertara nele um grande interesse.



O recurso utilizado para expressar as situações que se desenvolvem no imaginário de Georges é muito curioso e engraçado. Tudo o que ele imagina ocorre enquanto ele dirige, ou enquanto ele está em sua casa, no conforto da sua família, ou seja, enquanto ele está fazendo outras coisas, do mesmo modo como acontece conosco no dia-a-dia quando nos flagramos pensando em algo completamente diferente do que estamos fazendo. Esse é um dos pontos fundamentais do filme, o seu maior diferencial: a introspecção mental que é feita no consciente das personagens.



Georges fica frustrado ao perceber que Marguerite não tem pretensões de estabelecer maiores relações com ele, e o telefonema entre os dois pode parecer, para muitos, bizarro e até mesmo irreal. Acontece que o costume ao cinema nos moldes hollywoodianos, em que tudo se desenvolve da maneira mais natural possível, choca-se com o cinema de Resnais. Trata-se de pessoas, e, sendo assim, não temos como ter certeza alguma sobre a ação ou reação dos outros, o que é mostrado com muita perspicácia por Resnais.
Prova disso é a atitude de Marguerite que, após negar as insistentes investidas de Georges, resolve ir atrás dele, esperando-o sair do cinema. Ao vê-la, imediatamente ele questiona: “Quer dizer que você me ama, então?”, num diálogo divertido, fazendo uma leve ironia às comédias românticas francesas e à facilidade com que todos dizem “eu te amo”.



Percebemos que, no fim das contas, Georges e Marguerite são apenas pessoas solitárias, que são postas em contato através de uma situação comum e, ao mesmo tempo, inesperada.  Por isso mesmo, eles não sabem exatamente como se comportar, o que dizer um ao outro; têm dúvidas, anseios, expectativas, medo. Mas que reconhecem, através das palavras soltas, dos olhares hesitantes, das pequenas ações, enfim, a conexão existente entre eles. Com direito ainda a um beijo à la Hollywood, para fazer uma última brincadeirinha aos amores românticos do cinema.



Título Original: Les Herbes Folles

Direção: Alain Resnais

Elenco: André Dussollier, Anne Consigny, Annie Cordy, Dominique Rozan Edouard Baer, Sabine Azéma, Elric Covarel, Emmanuelle Devos, Jean-Noël Brouté.

Sinopse: Após um assalto, dentista tem seus documentos espalhados por um parque público. O homem que encontra sua carteira decide devolvê-la e os dois iniciam um relacionamento.


Trailer:

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Michele Figueiredo

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